16.2.08

Menina

Quando eu era moça e virgem tinha medo de homem. Tinha um embrulho no estômago que eu entendia como um alarme avisando que um homem se aproximava determinado a me levar, primeiro, para o escurinho e, depois, para o além. Achava todo homem grande, mesmo os mais baixinhos e magros eu achava por demais de grande e para mim todos tinham calos nas mãos e todos eram barbados.

Uma vez eu andava distraída e enjoada como sempre quando um rapaz com rosto de moça se aproximou sem que eu percebesse, disse oi sorrindo tanto e me estendeu um livro que eu logo reconheci como meu. Olhei para ele muda sem entender como uma coisa minha tinha parado assim na mão de outra pessoa. O rapaz, muito delicado, fez que eu entendesse que o tinha deixado cair sem perceber. E ainda, muito bonzinho, achou que eu devia estar pensando uma coisa muito importante para me distrair daquele jeito. Até me esforcei para ver se tinha no que eu pensava tanta importância. Mas acabei achando que não e que o quê eu tenho mesmo é um vento dentro da cabeça me rodando as idéias.

Continuei andando sentindo uma zonzeira, peguei o livro com uma vontade horrível de vomitar. Ao invés de agradecer eu disse vou vomitar, e senti ali mesmo um nojo enorme da minha pessoa. Mas o menino não se importou, me pegou com as mãos finas e me levou até um banheiro. Antes de entrar ia, finalmente, agradecer, mas ao invés de falar obrigada eu disse adoro esse livro e entrei com o coração na boca. Quando me curvei no vaso achei que ele ia pular para fora junto com o estômago, mas não pulou. Então vi que não tinha vomitado nada. E que o embrulho tinha passado todinho para o peito. Foi quando senti uma vontade irresistível de voltar. Sem saber que eu desejava tanto desejei que aquele rapaz branco como uma moça como eu além de educado fosse por Deus muito mais do que isso e ficasse lá fora me esperando. Saí afoita e desesperada já achando que é claro que ele tinha ido embora, por que iria ficar ? Mas logo dei com o seu rosto liso, também na expectativa de encontrar o meu. Gelei. E ao mesmo tempo fiquei toda quente para um abraço. Sim, não conhecia aquele moço que me esperava como ele tampouco conhecia a menina assustada que era eu mas tive naquele exato instante a certeza absoluta que morreria triste e descabelada se ele não me abraçasse ali mesmo de qualquer jeito, não precisava falar nada era só se aproximar que eu cairia levemente desmaiada nos seus braços. Quis também que ele pensasse muito em mim para sempre.
Respondi, meio tonta, que estava melhor sim, que a tonteira já tinha passado completamente que na verdade eu estava ótima e só precisava de um pouquinho de ar. Ai ! quando ele me estendeu as mãos, cheias de dedos longos de artista, e me olhou fundo como se se inclinasse, me convidando para uma dança, senti a boca se enchendo d’água e se abrindo toda, numa fome, como se fosse morder ou ser mordida. Tive também um aperto entre as pernas que, nossa mãe, nem sei como não cai ali mesmo arrastando ele comigo. Sei que tratei de morder os lábios na tentativa inútil de disfarçar como estava doida de pedra louca varrida de vontade de me explodir toda e beijar.
Com a sua mão branca segurando a minha pálida, fomos caminhando como quem passeia sem pressa de lugar nenhum. Ele falou o nome dele, eu sussurrei o meu. Quis saber se eu estava mesmo gostando do livro. Que livro ?, quase pergunto, na minha doidice, mas não sei como me controlei, lembrando logo qual era. Ele continuou o assunto dizendo que ganhou um igualzinho de presente, que já tinha começado a ler várias vezes, mas toda vez foi desistindo porque achou muito complicado. Estranhei aquilo, eu estava achando o livro ótimo e não tinha visto nada de complicado nele. A não ser, claro, a complicação da própria história, mas isso na vida de todo mundo também tem. Porém, não quis que ele me achasse metida, como eu acho que muita gente só porque lê é, e disse que realmente ele tinha toda razão que eu também estava achando ihh muito complicado mas depois não agüentei minha própria mentira e confessei que não era nada disso que na verdade não conseguia largar o livro, que estava adorando que, sei lá, vai ver eu gostava das coisas complicadas assim mesmo.

Ele me olhou de um jeito esquisito. Disse você é engraçada. E começou a rir. Fiquei curiosa sem saber que graça eu tinha feito para provocar tanto riso. Mas ele me encarou tão forte e direto que eu, como se estivesse cercada por todos os lados, fui me desviando toda. Olhei para tantas outras coisas que nem tinha mais para onde olhar. Num segundo, vi os carros as lojas as pessoas, e tudo tão rápido ! Até que, como quem dá uma volta no mesmo lugar, eu o vi de novo. E tão assustada ! pois já tinha reconhecido ali o medo de não ver. Porém, para minha tristeza ou alívio, ele não me olhava mais. Estava atento ao movimento da rua. Mas havia em sua expressão um leve sorriso, como um aviso de quem sabe que é observado mas que, fazendo de conta que não sabe, distraidamente se deixa observar. Como espiei o seu rosto ! E tanto que, de uma hora para outra, ele começou a se abrir num brilho só. Nossa, até me doeu achar ele tão bonito. Foi tão forte que, nem sei, parece que tive ali mesmo um abafo, como se começasse a me sentir mal, ou como se, de repente, começasse a não me sentir mais.

Então, eis que, tão quieto como quem vai dar um susto, e muito manso, ele se virou. Nos olhamos, enfim. E foi como um mesmo raio partindo duas pessoas. Ficamos tão confusos. Tive um sentimento recuado, como se num relance ele tivesse percebido em mim mais coisas do que eu queria ter deixado perceber. Ele também estava acuado, como se, da mesma forma, eu tivesse vislumbrado um mistério qualquer da sua vida de menino da sua pele macia que ele preferia nunca ter visto e nem deixado ver. Quase fomos cada um para um lado sem ao menos falar adeus. Mas ficamos. Era como se ao nos estranharmos, na verdade, nós nos reconhecêssemos. Por isso, não soltamos as mãos nem saímos correndo como nossos corpos pediam, só por isso, nos deixamos ficar.

Quis dizer alguma coisa, qualquer coisa, para não ficar daquele jeito como no ar suspensa, mas não tive para aquele momento nenhuma palavra. Comecei ali mesmo a sofrer de puro amor.

2 comentários:

eduardo monteiro disse...

É prosa mas parece poesia. Quantas vezes não passamos por esses momentos mágicos. Na totalidade das vezes ficam só nisso.
Belíssimo texto.

Anônimo disse...

Cláudia! Que saudade!
Parabéns pelo texto, você pegou o touro à unha, minina!, parece que você entrou na minha cabeça de adolescente e puxou o fio.
Adorei teu blog, já o coloquei como referência no da Estação das Letras.
Morro de saudades das tuas aulas, qualquer dia gostaria de te ver, criatura!
Mônica