3.11.05

Desejo de Noll

"Mas isso que você chama de imagético eu chamo também de pele da linguagem. Que tem uma musicalidade. Alguma coisa ligada à fome de beleza [...] acho que é uma certa compensação, pelo menos na minha luta de chegar à poesia. Estou querendo cada vez mais esse hibridismo - prosa e poesia - mas que não seja aquela prosa poética um pouco engalanada, que não me interessa. Mas reconheço no meu texto uma vertigem musical. [...] Acho importante que exista realmente uma questão explícita onde possa ser apresentado realmente um estilo musical - que tenha, digamos, um pouco de religiosidade, de repetição, de ladainha. [...] Claro que esta busca pela beleza não passa pelo ideal clássico, cadavérico, pronto, amplamente posto nos altares; mas uma beleza que seja furiosa, que seja até deselegante, horrorosa, feia. A literatura não é um documento naturalista. A gente tá empapuçado de naturalismo. E a literatura necessita de uma transfiguração estilística. Aquela utopia do Álvaro Ítalo: toque no meu poema, toque no meu poema. Minha utopia hoje é dissolver as fronteiras entre prosa e poesia. Tento captar a realidade através do que a linguagem me indica. [...] Realmente, o que vai me puxar, me arrastar e me movimentar em direção à ação do livro não é uma idéia de conteúdo prévio, mas é aquilo que a linguagem vai abrindo para mim. Como se realmente a linguagem fosse um exercício desejante de ação."

João Gilberto Noll

Um comentário:

Rodrigo M. Freire disse...

Eu já começo a pensar com bastante concordância a respeito do que trata o Noll. Digo dessa concordância porque não quero aparentar só ter visto implicantemente a parte de contradizer um grande nome: por um lado penso que a literatura não precisa de nada.
Esse pensamento do "precisa" é que já era. Precisa... precisa que sejamos sinceros com isto, mentirosos com aquilo...
...a literatura precisa...
A literatura não precisa sequer agradar ou existir! "Viver não é preciso."
Apenas agrada que agrade! Simples, sem considerar a diacronia dos movimentos literários, sem considerar fatos anteriores, contemporâneos ou receitas.
Como se chegar a isso? Há infindos tipos de leitores. Seria adequado Infindos tipos de escritores, sem acadêmias que os uniformize.
Concordo com o Noll em tudo, temos até uma mesma idéia sob vários aspectos. Impliquei com sua semântica para falar de uma coisa que muito me aborrece em alguns críticos e outras almas.