20.5.08

O topo da montanha mais alta merece o grito mais contido

Estou há um tempo para dar este grito aqui, mas antes precisei gritar em outros lugares, em casa, bares, no topo de montanhas e na beira de precipícios. É que, afinal e finalmente, após seis longos anos de imersões e interrupções, pesquisas, escritas e reescritas, coloquei o ponto final definitivo no meu romance.

Neste final de processo, algumas emoções, talvez, inevitáveis, vieram à tona frequentemente. A primeira era a ânsia arquejante de chegar ao verdadeiro ponto final, página a página, frase a frase, misto de euforia e tristeza. Quando cheguei na última página, e percebi que era realmente a derradeira, lembrei do processo desses longos anos, e entendi, já havia entendido há tempo, mas entendi de uma forma diferente, que a dificuldade maior deste livro não foi escrevê-lo, mas não escrevê-lo.

Escrever foi um aprendizado constante, sobreviver aos dias inférteis, às páginas inúteis (mas talvez nunca sejam realmente), prazer de descobrir caminhos narrativos desconhecidos para mim, de sentir nos dedos os personagens crescendo e aparecendo mais do que eu havia planejado, de ver a história tomando forma própria, voando acima das pesquisas feitas, estabelecendo atmosferas e texturas que me exigiram um envolvimento íntimo, uma carga pessoal em uma história passada em outro século, emoções e sentimentos que a princípio nada tinham a ver comigo. Mas, ora, como a convivência nos revela. Desde o início, talvez eu desconfiasse, confesso, que havia ali, naquela família e naquelas relações, sentimentos que também me habitavam, de certo modo. E agora, após o ponto final, seis anos de convívio com essas pessoas, com esse universo, descubro ofegante que escrever também pode ser, ou só é, essa amalgáma de ficção e experiência, confluências e imaginação, confissão disfarçada e entendimentos enfim realizados. Independente da história que se conta, da aparente relação (ou não) com o nosso mundo real, a ficção é mais rica do que imagina as nossas referências pessoais, é mais exigente do que se pensa, não se contenta com afinidades, identificações, ou desejos criativos formais e racionalizados, ela se alimenta do que nem podemos desconfiar. Ainda bem, ela arruma a sua forma própria de acontecer. É ela que penetra em nossa sensibilidade, em nossa memória, em nossos afetos, e não ao contrário. Que bom que compreendi isso a tempo, e não tarde demais.



Não escrever foi a parte mais difícil, porque a realidade talvez nunca tenha me chamado tanto, me exigido tanto como nestes seis anos. Chamo de "realidade" neste momento aquilo que nos acontece, que acontece às pessoas ao nosso redor, e que nos exige presença e atenção. Tentei, como pude, conciliar as forças e equilibrar todas as necessidades. Mas é justamente quando a gente acha que encontou algum equilíbrio sobre a terra que ela estremece. É justamente quando os pés tocam o chão que escorregamos. Às vezes me sentava diante do PC com a sensação de que escrevia em meio ao caos. O PC, sólido, enquanto o mundo desabava ao redor. Junto a isso, toda a rotina de trabalho fora da escrita, que também exige atenção de outra ordem, a de sobreviver mês a mês. Enquanto escrevia este livro, a vida nunca foi tão real, a realidade, tão bruta, e a ficção, para quem eu voltava sempre devedora e atrasada, tão necessária.

2 comentários:

Anônimo disse...

Cláudia,

Veja só: ainda não amanheceu direito e estou aqui com o coração na mão, chorando a seco por causa do seu depoimento poderoso.

E é engraçado ter pensado logo nessa palavra pra qualificar seu texto, que diz tanto também sobre uma experiência de despojamento e de aceitação e de abertura e de humildade.

Que o impacto do seu texto perdure em mim, e viva você!

Cristiane B.

Amanda disse...

Quero uma dica de montanha para gritar. Obrigada