12.12.05

pensar e escrever

Pensar sobre a escrita? É bom. Estudar autores, textos, estilos, técnicas. Mas há a hora de deixar os dedos correrem apenas. Apenas sentir. Apenas escrever. Sem pensar no resultado. Sem pensar na opinião das pessoas. Sem lembrar que existem pessoas. Sem lembrar de outro universo a não ser aquele que está sendo escrito/criado. Escrever sem perseguir nada. Querer nada. Escrever apenas. Deixar as palavras saírem, puro movimento sem elaborações. Palavra como respiração. Abandonar o intelecto. O intelecto quer sempre uma forma, um estilo, uma direção. Ser direção nenhuma. Deixar que a forma se faça por si mesmo, se se fizer. Deixar o amorfo, se for o caso. O amorfo é forma sem forma. Deixar a palavra nascer da própria necessidade dela. Do próprio grito, da própria urgência, do próprio sonho.

Lembrar que escrever é imaginar. Lembrar que a imaginação tem forma própria. É só deixar acontecer. É só não criar teorias sobre.
Escrever imaginando, não teorizando. Pensar sobre a escrita, sim. Escrever pensando, não.

3 comentários:

tati salem disse...

falou tudo, agora, clau!
vivo essa questão todos os dias... fazer doutorado em literatura e escrever romance ao mesmo tempo não é mole não!
mas eh exatamente isso, entender que escrever é imaginar, que a literaturqa tem seu mundo próprio...
beijos

Mônica ^Leite Costa disse...

Parece que tô te vendo na sala de aula! O legal de você escrever isto é que nos ajuda enormemente nas nossas horas d silêncio e solidão. Tomara que eu possa imprimir tudo para ler um pouquinho todos os dias...

Rodrigo M. Freire disse...

Escrever pode ser uma necessidade quase tão quando beber água para alguns, e isso fez-me lembrar da poesia de meu inseparável "Camorierf".

CANTO POR MAIS QUE O BELO

Se em certo ou errado,
belo ou feio,
de prudência ou displicente
pretende o julgo do teu siso
pôr-me discriminado;
se um ou outro desses requisitos
de elegância, juízo moral,
possibilita-me a estreita categoria
em qual me compreende
a tua inútil estética pré-moldada,
há muito em que te escapo entre dentes
num chiado de dor, no último suspiro,
e atravesso friamente a carne parnasiana
num ruído inconveniente reverberado,
externando a necessidade maior que o luxo,
e escrevo por uma vida compulsória
ou narro a ontogênese sem alegorias.
Inexorável como a queda da pedra solta à gravidade.
Afastando o historicismo estético constituído e ornamentado
o clássico, o renascentista, o barroco e etc.
surjo como o reflexo inevitável ao susto, em que gritas
Acima da pobreza de enquadrar-me em seu dicionário
não estou alegre, nem triste,
nem lastimoso patético,
feio ou belo;
estou necessário.

(Pablo Camorierf)

http://palavrasmagicas.multiply.com/journal/item/234/CANTO_POR_MAIS_QUE_O_BELO_POESIA_EXATA