5.8.05

Redemoinho


Uma das coisas que venho experimentando no romance é o tempo. Em vez de contar a história de forma linear, início, meio, fim, ou de experimentar misturar início-no-fim- fim-no-meio-fimício-e-fimeio, ou só-início, só-fim, só-meio, achei que essa história específica ficaria interessante se contada num tempo espiralado. É mais ou menos assim: um fio de história puxa outro e outro e outro... que retorna ao outro ao outro que puxa o outro e outro e volta ao outro e assim vai que vai meu deus do céu e da terra! Tudo já aconteceu e acontece ao mesmo tempo. Tudo já existe e existiu, e tudo se condensa no instante narrado. Presente pretérito. Quando comecei, achei uma delícia. Continuo achando. Mas depois das cem páginas, precisei ter uma memória elefântica. Não tenho. Então tive que anotar tudo. Tudo mesmo, o que já foi dito, feito, pensado, informado, vivido, sonhado. A repetição acontece, sim, mais por uma questão de perspectiva da história do que por efeito. Se tiver efeito, oba também. Não pode ser é por esquecimento da escritora. Tenho que reler muito tudo também, o que às vezes toma tempo demais e me deixa puxando os cabelos (puxar, sim, arrancar, nunca).

As imagens da espiral e do redemoinho sempre me ajudam. Olhando assim, é embrulhado. Mas existe uma ordem no caos que me guia. No redemoinho, há um eixo bem condensado no meio com estilhaços e nuvens ao redor, que também são o redemoinho. Na espiral também há entrecruzamentos por todos os lados. Assim funciona a história. O desafio é trabalhar nessa direção e manter a clareza. A minha e a da escrita. Uma das maneiras que encontrei para não estremecer, largar tudo e sair para o primeiro chope da esquina a cada vez que penso no tamanho da moda que inventei - ou da armadilha em que me meti (e talvez esse seja um dia desses de largar tudo e partir para o primeiro chope da esquina) – é simplesmente enfocar parte por parte. Isso significa, fio de história por fio de história, frase por frase. Parar quantas vezes for necessário, voltar, se necessário. Quer dizer, me transformar num mestre Zen, se necessário. E se possível. Se impossível, só me resta fechar os olhos e entrar no redemoinho para ver onde ele quer me levar afinal. Às vezes, ou na maioria das vezes, a própria escrita indica o caminho. Acredito nisso. Ou é isso, ou o chope da esquina.

2 comentários:

Mônica Leite Costa disse...

Entra no redemoinho, Cláudia! Mas entra de cabeça. Mas vem cá, tem que voltar ou o caminho é só de ida? Adorei esta idéia, posso tentar, se é que eu entendi?

Rodrigo M. Freire disse...

Comecei um romance também, demais ambicioso o negócio. Depois resolvi levar ou deixar minha prosa para o conto. E difícil quando não é nossa profissão de sustento dedicar-se a um ROMANCE. E esta coisa de tempo na história, fatos que colidem, confude demais mesmo, Cláudia. Uma doideira.
Abraços!