21.8.07

porque sim

Ele disse que escrevia para salvar o mundo.
Ela disse que o mundo não tinha salvação e escrevia exclusivamente para salvar a si própria.
Ele aconselhou não contar com isso, que escrevesse apenas para continuar vivendo.
Ela respondeu que continuar é um motivo justo para se escrever, mas que para viver não, a vida exige muito mais do que apenas o continuar dos dias.
Ele não quis pensar sobre o assunto, preferiu escutar outra pessoa que disse que escrevia para se distrair da realidade.
Ela se espantou, nunca havia cogitado a hipótese: se distrair da realidade. Havia cogitado fugir, escapar, esquecer.
A outra pessoa continuou: escrevo para fazer graça.
Ele se coçou: como?
Graça com a vida, ora.
Ela riu, escrever é coisa séria.
Riram.
É coisa profunda, de assustar.
É pelos sustos que escrevo, disse outro homem. O mundo vai me assustando e eu vou escrevendo o que me assusta.
Só escrevo quando estou triste, outra mulher falou.
Eu, só quando estou feliz, ele disse.
Não sei escrever com um problema pendente, alguém comentou.
E uma mulher: Já eu penduro os problemas num canto da cabeça para escrever.
E outros:
Eu escrevo para entender. Eu escrevo porque não entendo. Eu escrevo para inventar.
Eu escrevo para destruir. Eu escrevo porque não sei. Eu escrevo porque não quero saber.
Eu escrevo porque gosto. Eu escrevo porque quero. Para esquecer. Para lembrar. Para me expressar. Para me exibir. Para me ocupar. É o que sei fazer. É o que acho que sei. Porque sofro. Porque amo. Porque sonho. Porque desejo. Porque odeio. Porque digo. Porque não admito. Porque não calo.
Eu escrevo, a moça disse, porque tenho a certeza que ninguém vai ler. Escrevo só para mim.
Eu não escrevo para ninguém, nem para mim mesmo, o moço completou.
Já eu simplesmente não escrevo, outro homem enfatizou. Não vou escrever num país com mais escritores que leitores.
E com mais escritores que bons livros, outra pessoa inferiu, provocando vaias e aplausos.
Eu escrevo por causa disso tudo, ele falou.
E eu escrevo apesar de tudo, ela retrucou.
Eu escrevo contra. Eu escrevo com.
Eu escrevo para. Ao encontro de. Em busca de. Eu escrevo por.
Eu escrevo por que.
Eu escrevo.

2 comentários:

Anônimo disse...

O seu texto está fantástico: maravilhoso pra começar uma conversa numa oficina de criação, foda pra ler em silêncio e depois dormir com uma barulho desses.

Muito fã,

Cristiane B.

Monica disse...

Cláudia, minha fessora querida,seu blog tá maneiro, adorei este teu texto sobre a escrita. Uma vez eu disse que escrevia pra não ficar louca, assim, sem querer, e ficou. Meu livro está quase saindo, parece um parto,et pour cause tenho pensado muito em você, que me deu tanta força!
Que bom te ler de volta, morro de saudades,
Beijos esfusiantes,
Mônica Leite Costa