3.1.06

Por uma literatura sem pudor

"O escritor contemporâneo, inspirado pelo escritor rebelde de Cortázar, impõe a si mesmo o desafio expressivo que percebe de sua época, de seu tempo, e que se torna a sua saga pessoal. Para ele, a aventura de escrever não se limita a colocar palavras no papel e contar bem e com alguma graça uma história (essa habilidade é o início e não o fim de sua vocação). Tampouco é utilizar as mesmas armas agressivas do escritor rebelde contra a tradição, já que as mesmas já se tornaram com o tempo, uso e repetição também uma espécie de tradição. Este escritor percebe que muito já foi feito, desfeito, dito, redito e sente no ato de escrever um tipo de saturação do próprio verbo. Há tantas formas possíveis de se contar uma história que ele se pergunta se todas já não foram feitas e refeitas exaustivamente nas últimas décadas.
Enquanto a tradição exalta a linguagem como a expressão mais bela e precisa do ser humano e de seus costumes, a vanguarda quer destruí-la em sua superfície de vidro e gelo, perfurar o seu conteúdo e alcançar o cerne que exprima além dos costumes humanos. Por sua vez, enquanto a vanguarda faz a escavação profunda do verbo, desconstruindo muitas vezes significantes e significados, na busca de criar uma linguagem original para cada situação a ser expressa, o escritor contemporâneo une a esta atitude, que ele não vê mais como um manifesto, mas como uma proposta artística, uma profunda desconfiança de que mesmo as mais diabólicas distorções, as mais radicais experiências dos modos verbais, que buscam exprimir a vida humana da forma mais vital e original possível, contêm dentro de suas explosões e brilho o elemento corrosivo da autodestruição. Dessa forma, além do desafio de, diante de todas as realizações literárias passadas e presentes, criar uma linguagem própria, uma escrita singular, o escritor contemporâneo ainda pode descobrir no meio do caminho que, mesmo cavando o túnel e abrindo espaço dentro da terra rígida, encontrará inevitavelmente dentro da própria linguagem limites comunicativos intransponíveis. [...] E, ao se assumir a limitação como parte integrante da própria natureza do verbo, esta se torna, por sua vez, expressiva. E alcança um grau de comunicação estabelecido não só por aquilo que se diz, mas, principalmente, pelo o que se deixou de dizer. [...] de alguma forma, o elemento corrosivo - a impossibilidade- incorpora-se ao processo comunicativo e este comete a mágica proeza de comunicar, não só o que é possível, mas também a própria incomunicabilidade." (p.42-43)


Este é um trecho da minha dissertação, chamada Por uma literatura sem pudor. É sobre o escritor contemporâneo diante das experiências estéticas da vanguarda e da tradição. A idéia é a de que escritor contemporâneo tem o desafio mais do que antropofágico de absorver/entender/deglutir/vomitar as propostas e se posicionar diante delas, mas o desafio maior de ultrapassá-las, em busca de sua voz original. Esse esforço de cavar o túnel da matéria já estabelecida na linguagem literária e tentar sair do padrão (da vanguarda ou da tradição) na busca de uma voz narrativa realmente própria e autêntica é o trabalho mais belo e desafiante do escritor contemporâneo.

Para isso, é necessário uma posição do escritor diante da história literária. Essa posição indica a formação de uma proposta artística. Um diálogo que se cria diante de tudo que já foi feito na linguagem.

No meu entender, é clara, de maneira geral, a forte continuidade de uma linha estética mais tradicional. Porém, há escritores que apontam em seus textos outros desejos expressivos, outras referências artísticas. Em seus trabalhos, percebe-se que essa inquietação não se satisfaz com os limites da representação realista, evidenciando a noção de que esta possui ferramentas expressivas para e de uma época específica que hoje não dão conta, nem poderiam mesmo dar, das necessidades e possibilidades das relações e vidas contemporâneas.

Se a tradição não dá mais conta do recado, com suas descrições e explicações, o desafio é entrar no caminho da experimentação da linguagem, o mais estimulante e criativo, sem se deixar seduzir demais por ele, a ponto dele se tornar o fim e não o início do caminho. Que seja o início da busca pela voz original do escritor, e não o objetivo principal, experimentar por experimentar. Que o objetivo principal do escritor seja encontrar a sua voz narrativa singular. O seu jeito único de ver e dizer o mundo.

Um comentário:

Mônica Leite Costa disse...

Querida Cláudia, voce vai arrasar nesta tese, o título já é instigante. Só acho que temos que pensar nos leitores também: será que eles gostarão de ler sempre as novidades da linguagem nos textos,ou apenas ler boas histórias? Tenho lido muita coisa, de vanguarda e não, e qdo. pego uma Antonia Byatt, um Marcos Rodrigues, Um Antonio Lobo Antunes, vejo que o que me agrada profundamente são as histórias bem escritas, onde entre um pouco de delicadeza e muita sensibilidade. Acho que esta discussão é infinita, boa pra nossa sala de aula, não é mesmo? Beijos de sua aluna Mônica Leite Costa.