Não posso ler muito o Nelson Rodrigues. Principalmente as crônicas, não posso. E tenho lido. Muito. É uma questão de sobrevivência. As crônicas do Nelson me divertem, são mais eficazes contra o stress do que a meditação e a yoga. Decidi que, daqui para frente, nunca mais vou a yoga. Na hora da aula, acenderei o incenso, sentarei em lótus e lerei Nelson Rodrigues.
Bem, mas falo isso porque quando leio Nelson Rodrigues fico contaminada com a sua fina e cruel ironia. A sua vontade de falar o que deve e não deve. E a questão é que tenho pensado muito na Geração Paissandu que o grande escritor cita em suas crônicas. É a Geração de artistas de esquerda, que, na década de 60/70, freqüentava o cinema Paissandu, no Flamengo. Segundo Nelson, é uma geração de cineastas sem filmes, escritores sem livros, pintores sem telas, atores e atrizes sem peças, filósofos sem filosofia, e por aí vai... Todos, no entanto, profundos intelectuais. Nelson não suportava esta Geração que colocava Marx, Fidel e Che na frente da criação artística. Entretanto, apesar de colocá-los na frente, a única coisa que faziam era posar ao lado das idéias dos grandes líderes. Para a Geração, era o suficiente sair de casa, ir ao Paissandu e falar de Marx, Fidel, Che e dos livros geniais que nunca escreveriam, dos filmes geniais que nunca filmariam, etc... Para Nelson, a geração Paissandu era apenas e simplesmente uma pose monumental.
E vejam, tenho pensado muito na Geração Paissandu e de repente, navegando pela Web, me deparo com uma entrevista com novos escritores (o Nelson colocaria um hífen entre as duas palavras e emergiria daí um personagem). E a declaração bombástica de um deles (Nelson diria os nomes) é que a vantagem de sua geração é que ela não precisa conhecer o passado literário. Estão, finalmente e simplesmente, livres para criar. Nelson Rodrigues falava muito dos idiotas da objetividade. Aqueles que falam os maiores absurdos na mais inocente cara-de-pau. Ou aqueles que falam as coisas mais óbvias com o ar e a pose de um Rimbaud. Aqui, no caso, o novo-escritor falava sinceramente. Realmente achava que a ignorância era libertadora. Essa idéia confusa que une a ignorância à liberdade, Nelson não perdoaria. Ainda mais dita pelo “O jovem”, personagem conhecido das crônicas rodriguianas. Pois, como o jovem rodriguiano, o novo-escritor, com a potência de sua juventude, despachou todo o nosso passado literário com um peteleco só. Passado antigo ou recente, não importa, foram enxotados da literatura contemporânea todos os nossos escritores. Restou apenas ele, o jovem, com o seu texto livre, livre, livre.
Dói e cansa falar o óbvio, dizia Nelson Rodrigues, e dou as mãos a ele em seu cansaço e dor. Se conhecesse o passado literário, se tivesse referências de escritores, paradigmas erguidos e rompidos, para dizer o mínimo, o jovem novo-escritor teria poupado a si mesmo e aos caros leitores da declaração seguinte, que lhe pareceu vir de uma reflexão profunda e reveladora: “estamos renovando a literatura brasileira”, ele disse. Nessa hora, sobre o meu computador, baixou um mau tempo de quinto ato do Rigoletto. Um padre de passeata atravessou correndo o quarto. Um pigarro imaginário sufocou minha garganta. Senti revirar no estômago a úlcera que não tenho, e que Nelson Rodrigues acalmava todas as madrugadas com papinhas e mingaus.
Claro, claro, o jovem novo-escritor renova a literatura brasileira instaurada por ele mesmo: a de uma geração só. Assim, enterrados Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Cornélio Pena, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Hilda Hilst, Castro Alves, Autran Dourado, Graciliano Ramos, José de Alencar, Murilo Mendes, Lygia F. Telles, Lima Barreto, Qorpo-Santo, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Aluísio Azevedo, Manuel Bandeira, Lúcio Cardoso, Raquel de Queirós, Adélia Prado, Sérgio Sant’anna, Cruz e Sousa, Paulo Leminski, Caio Fernando Abreu, e o próprio Nelson Rodrigues, - só para citar alguns escritores entre tantos outros que contribuíram, acrescentaram ou até mesmo transformaram a nossa literatura,- então, enterrados todos, é possível, é fácil, é rápido, ser renovador, ousado, original, genial.
Depois de ler a entrevista, interrompida no meio, confesso, só me restou voltar às crônicas rodriguianas, para acalmar os ânimos, e torcer, diante de círios ardentes, para que a opinião do jovem novo-escritor seja tão solitária como a geração que ele proclama, e não ganhe ares do estádio Mário Filho em dia de Fla x Flu.