Uma vez eu andava distraída e enjoada como sempre quando um rapaz com rosto de moça se aproximou sem que eu percebesse, disse oi sorrindo tanto e me estendeu um livro que eu logo reconheci como meu. Olhei para ele muda sem entender como uma coisa minha tinha parado assim na mão de outra pessoa. O rapaz, muito delicado, fez que eu entendesse que o tinha deixado cair sem perceber. E ainda, muito bonzinho, achou que eu devia estar pensando uma coisa muito importante para me distrair daquele jeito. Até me esforcei para ver se tinha no que eu pensava tanta importância. Mas acabei achando que não e que o quê eu tenho mesmo é um vento dentro da cabeça me rodando as idéias.
Continuei andando sentindo uma zonzeira, peguei o livro com uma vontade horrível de vomitar. Ao invés de agradecer eu disse vou vomitar, e senti ali mesmo um nojo enorme da minha pessoa. Mas o menino não se importou, me pegou com as mãos finas e me levou até um banheiro. Antes de entrar ia, finalmente, agradecer, mas ao invés de falar obrigada eu disse adoro esse livro e entrei com o coração na boca. Quando me curvei no vaso achei que ele ia pular para fora junto com o estômago, mas não pulou. Então vi que não tinha vomitado nada. E que o embrulho tinha passado todinho para o peito. Foi quando senti uma vontade irresistível de voltar. Sem saber que eu desejava tanto desejei que aquele rapaz branco como uma moça como eu além de educado fosse por Deus muito mais do que isso e ficasse lá fora me esperando. Saí afoita e desesperada já achando que é claro que ele tinha ido embora, por que iria ficar ? Mas logo dei com o seu rosto liso, também na expectativa de encontrar o meu. Gelei. E ao mesmo tempo fiquei toda quente para um abraço. Sim, não conhecia aquele moço que me esperava como ele tampouco conhecia a menina assustada que era eu mas tive naquele exato instante a certeza absoluta que morreria triste e descabelada se ele não me abraçasse ali mesmo de qualquer jeito, não precisava falar nada era só se aproximar que eu cairia levemente desmaiada nos seus braços. Quis também que ele pensasse muito em mim para sempre.
Ele me olhou de um jeito esquisito. Disse você é engraçada. E começou a rir. Fiquei curiosa sem saber que graça eu tinha feito para provocar tanto riso. Mas ele me encarou tão forte e direto que eu, como se estivesse cercada por todos os lados, fui me desviando toda. Olhei para tantas outras coisas que nem tinha mais para onde olhar. Num segundo, vi os carros as lojas as pessoas, e tudo tão rápido ! Até que, como quem dá uma volta no mesmo lugar, eu o vi de novo. E tão assustada ! pois já tinha reconhecido ali o medo de não ver. Porém, para minha tristeza ou alívio, ele não me olhava mais. Estava atento ao movimento da rua. Mas havia em sua expressão um leve sorriso, como um aviso de quem sabe que é observado mas que, fazendo de conta que não sabe, distraidamente se deixa observar. Como espiei o seu rosto ! E tanto que, de uma hora para outra, ele começou a se abrir num brilho só. Nossa, até me doeu achar ele tão bonito. Foi tão forte que, nem sei, parece que tive ali mesmo um abafo, como se começasse a me sentir mal, ou como se, de repente, começasse a não me sentir mais.
Então, eis que, tão quieto como quem vai dar um susto, e muito manso, ele se virou. Nos olhamos, enfim. E foi como um mesmo raio partindo duas pessoas. Ficamos tão confusos. Tive um sentimento recuado, como se num relance ele tivesse percebido em mim mais coisas do que eu queria ter deixado perceber. Ele também estava acuado, como se, da mesma forma, eu tivesse vislumbrado um mistério qualquer da sua vida de menino da sua pele macia que ele preferia nunca ter visto e nem deixado ver. Quase fomos cada um para um lado sem ao menos falar adeus. Mas ficamos. Era como se ao nos estranharmos, na verdade, nós nos reconhecêssemos. Por isso, não soltamos as mãos nem saímos correndo como nossos corpos pediam, só por isso, nos deixamos ficar.
Quis dizer alguma coisa, qualquer coisa, para não ficar daquele jeito como no ar suspensa, mas não tive para aquele momento nenhuma palavra. Comecei ali mesmo a sofrer de puro amor.
