16.2.08

Menina

Quando eu era moça e virgem tinha medo de homem. Tinha um embrulho no estômago que eu entendia como um alarme avisando que um homem se aproximava determinado a me levar, primeiro, para o escurinho e, depois, para o além. Achava todo homem grande, mesmo os mais baixinhos e magros eu achava por demais de grande e para mim todos tinham calos nas mãos e todos eram barbados.

Uma vez eu andava distraída e enjoada como sempre quando um rapaz com rosto de moça se aproximou sem que eu percebesse, disse oi sorrindo tanto e me estendeu um livro que eu logo reconheci como meu. Olhei para ele muda sem entender como uma coisa minha tinha parado assim na mão de outra pessoa. O rapaz, muito delicado, fez que eu entendesse que o tinha deixado cair sem perceber. E ainda, muito bonzinho, achou que eu devia estar pensando uma coisa muito importante para me distrair daquele jeito. Até me esforcei para ver se tinha no que eu pensava tanta importância. Mas acabei achando que não e que o quê eu tenho mesmo é um vento dentro da cabeça me rodando as idéias.

Continuei andando sentindo uma zonzeira, peguei o livro com uma vontade horrível de vomitar. Ao invés de agradecer eu disse vou vomitar, e senti ali mesmo um nojo enorme da minha pessoa. Mas o menino não se importou, me pegou com as mãos finas e me levou até um banheiro. Antes de entrar ia, finalmente, agradecer, mas ao invés de falar obrigada eu disse adoro esse livro e entrei com o coração na boca. Quando me curvei no vaso achei que ele ia pular para fora junto com o estômago, mas não pulou. Então vi que não tinha vomitado nada. E que o embrulho tinha passado todinho para o peito. Foi quando senti uma vontade irresistível de voltar. Sem saber que eu desejava tanto desejei que aquele rapaz branco como uma moça como eu além de educado fosse por Deus muito mais do que isso e ficasse lá fora me esperando. Saí afoita e desesperada já achando que é claro que ele tinha ido embora, por que iria ficar ? Mas logo dei com o seu rosto liso, também na expectativa de encontrar o meu. Gelei. E ao mesmo tempo fiquei toda quente para um abraço. Sim, não conhecia aquele moço que me esperava como ele tampouco conhecia a menina assustada que era eu mas tive naquele exato instante a certeza absoluta que morreria triste e descabelada se ele não me abraçasse ali mesmo de qualquer jeito, não precisava falar nada era só se aproximar que eu cairia levemente desmaiada nos seus braços. Quis também que ele pensasse muito em mim para sempre.
Respondi, meio tonta, que estava melhor sim, que a tonteira já tinha passado completamente que na verdade eu estava ótima e só precisava de um pouquinho de ar. Ai ! quando ele me estendeu as mãos, cheias de dedos longos de artista, e me olhou fundo como se se inclinasse, me convidando para uma dança, senti a boca se enchendo d’água e se abrindo toda, numa fome, como se fosse morder ou ser mordida. Tive também um aperto entre as pernas que, nossa mãe, nem sei como não cai ali mesmo arrastando ele comigo. Sei que tratei de morder os lábios na tentativa inútil de disfarçar como estava doida de pedra louca varrida de vontade de me explodir toda e beijar.
Com a sua mão branca segurando a minha pálida, fomos caminhando como quem passeia sem pressa de lugar nenhum. Ele falou o nome dele, eu sussurrei o meu. Quis saber se eu estava mesmo gostando do livro. Que livro ?, quase pergunto, na minha doidice, mas não sei como me controlei, lembrando logo qual era. Ele continuou o assunto dizendo que ganhou um igualzinho de presente, que já tinha começado a ler várias vezes, mas toda vez foi desistindo porque achou muito complicado. Estranhei aquilo, eu estava achando o livro ótimo e não tinha visto nada de complicado nele. A não ser, claro, a complicação da própria história, mas isso na vida de todo mundo também tem. Porém, não quis que ele me achasse metida, como eu acho que muita gente só porque lê é, e disse que realmente ele tinha toda razão que eu também estava achando ihh muito complicado mas depois não agüentei minha própria mentira e confessei que não era nada disso que na verdade não conseguia largar o livro, que estava adorando que, sei lá, vai ver eu gostava das coisas complicadas assim mesmo.

Ele me olhou de um jeito esquisito. Disse você é engraçada. E começou a rir. Fiquei curiosa sem saber que graça eu tinha feito para provocar tanto riso. Mas ele me encarou tão forte e direto que eu, como se estivesse cercada por todos os lados, fui me desviando toda. Olhei para tantas outras coisas que nem tinha mais para onde olhar. Num segundo, vi os carros as lojas as pessoas, e tudo tão rápido ! Até que, como quem dá uma volta no mesmo lugar, eu o vi de novo. E tão assustada ! pois já tinha reconhecido ali o medo de não ver. Porém, para minha tristeza ou alívio, ele não me olhava mais. Estava atento ao movimento da rua. Mas havia em sua expressão um leve sorriso, como um aviso de quem sabe que é observado mas que, fazendo de conta que não sabe, distraidamente se deixa observar. Como espiei o seu rosto ! E tanto que, de uma hora para outra, ele começou a se abrir num brilho só. Nossa, até me doeu achar ele tão bonito. Foi tão forte que, nem sei, parece que tive ali mesmo um abafo, como se começasse a me sentir mal, ou como se, de repente, começasse a não me sentir mais.

Então, eis que, tão quieto como quem vai dar um susto, e muito manso, ele se virou. Nos olhamos, enfim. E foi como um mesmo raio partindo duas pessoas. Ficamos tão confusos. Tive um sentimento recuado, como se num relance ele tivesse percebido em mim mais coisas do que eu queria ter deixado perceber. Ele também estava acuado, como se, da mesma forma, eu tivesse vislumbrado um mistério qualquer da sua vida de menino da sua pele macia que ele preferia nunca ter visto e nem deixado ver. Quase fomos cada um para um lado sem ao menos falar adeus. Mas ficamos. Era como se ao nos estranharmos, na verdade, nós nos reconhecêssemos. Por isso, não soltamos as mãos nem saímos correndo como nossos corpos pediam, só por isso, nos deixamos ficar.

Quis dizer alguma coisa, qualquer coisa, para não ficar daquele jeito como no ar suspensa, mas não tive para aquele momento nenhuma palavra. Comecei ali mesmo a sofrer de puro amor.

14.2.08

Mortes Imaginárias - II

É um livro não só para quem gosta de ler e escrever, é, principalmente, um livro para quem gosta de escritores. E, especialmente, escritores imortalizados no espaço-tempo, que já se tornaram, de certa forma, personagens.


E os escritores que passam por este livro, Montaigne, Goethe, Puchkin, Balzac, Heine, Dumas pai, Flaubert, Maupassant, Tchecov, Rilke, Doroty Parker, Nabokov, Capote, entre tantos outros, são personagens na mão de Michel Schneider, em seus últimos momentos de vida. O cerne do livro é a última palavra dita pelo escritor em seu leito de morte. Nem todas têm relação direta com o momento da morte, outras são totalmente expressivas do último instante e da última voz. O trabalho deve ter sido duro. Schneider pesquisou a biografia de cada escritor e criou depois uma espécie de conto-ensaio de cada um em seus últimos momentos, tratando de forma ficcional as circunstâncias da morte.
Para quem gosta do genêro ficção-ensaio, é maravilhoso. O livro está quase andando sozinho pela casa, de tanto que já o levei para lá e para cá. Todos os contos são muito bons, mas o sobre Tchecov é de uma riqueza impressionante. Doente, foi com a esposa para a Alemanha para um tratamento. Pouco antes de morrer, estavam no quarto o médico e sua esposa. Após a refeição, Tchecov se vira para a parede e diz, Icc sterbe. Morro, em alemão. E, em seguida, morre.
Tchecov mal sabia alemão. Mas era um homem conhecido por sua educação. Por isso, anunciava a sua partida para que não houvesse sustos nem alvoroços. E a anunciava em alemão por causa do médico alemão ao seu lado. Preferiu não falar em russo, a sua língua natal, "porque não se fala uma língua na frente de alguém que não a compreende." Assim, o escritor morreu como viveu, educadamente e sem espantos.

31.1.08

Mortes Imaginárias

"Faz tempo que não tomo champanhe, diz Tchecov antes de se entregar à velha e íntima inimiga. Ele certamente fazia pouco da glória póstuma e da pose final, e importava-se pouco em deixar uma frase de moribundo. A morte rabisca. Tchecov não tem mais a força do arrependimento. Escreveu certo dia: "A arte de escrever não é a arte de escrever bem, e sim a arte de riscar o que foi mal escrito".




"Flaubert, moribundo no sofá turco, relembra sobretudo essas imagens, como aquela que o fez ser ele próprio escritor, a mania de não ver as coisas com os olhos mas com as palavras, de escrever para imaginar o que jamais se saberá".





Não resisti em colocar uma palhinha deste livro que vem consumindo meus dias, mente-coração, desde que o ganhei de presente. (Obrigada, meu amigo! Amo ganhar livros, e este é um daqueles definitivos, que acompanham a gente para sempre).




Chama-se Mortes Imaginárias, de Michel Schneider.



Volto depois com calma e mais tempo.



Mas acordei pensando nele e não resisti.

28.1.08

Meme

A Adriana Lisboa (http://caquiscaidos.blogspot.com/) me passou este meme, que uma amiga passou para ela, que respondo aqui, e curti tanto responder que passo também para:
Cris Brasileiro e sua Elizabetta (http://avidaebettica.blogspot.com/)




1. O que você estava fazendo em 1978 (há 30 anos)?


Lendo a Bolsa Amarela, da Lygia Bojunga (Nunes, na época), procurando no armário uma bolsa amarela para mim e tagarelando sem parar, para os meus pais e a minha irmã, histórias que eu inventava no percurso de Niterói até Muriqui (coitados!), onde tínhamos uma casa de praia.


2. E em 1983, há 25?

Escrevendo poesias tristes, enfrentando a minha primeira morte (a do meu pai), cantando no coral da escola para espantar a tristeza, andando de patins com minha irmã na pista do rollerdisc e dançando muito na matinê da discoteca.


3. O que você estava fazendo em 1988?

Estava apaixonada por três garotos totalmente diferentes um do outro (afinal, qual é a graça de estar apaixonada ao mesmo tempo por três pessoas parecidas?), escrevendo poesias de amor desesperado e desesperançado para eles, mostrando para as minhas amigas, que suspiravam e copiavam os poemas nas agendas delas; aprendendo guitarra para musicar as minhas poesias de amor louco, reunindo (eu e minha irmã) amigas lá em casa com uns instrumentos que mal sabíamos segurar, muito menos tocar, e chamando isso, com muito orgulho, de banda de rock só de garotas.


4. E em 1993?

Escrevendo um conto atrás do outro e deixando aos poucos a poesia; fazendo faculdade de teatro e de letras, tudo ao mesmo tempo agora; olhando para o céu e estudando astrologia.


5. O que estava fazendo há 10 anos?

Lendo mapa astral e jogando tarô, cheia de perguntas e poucas respostas; começando a dar aula de literatura; ensaiando mil peças e apresentando a muito custo uma; fazendo performance pelas ruas com meu grupo de teatro; olhando o meu livro de contos pronto, esperando notícias.


6. E há cinco?

Namorando muito, thank you very much; estudando bastante no mestrado, arrancando os cabelos e jogando no lixo cem páginas horrorosas do meu primeiro romance, recomeçando a escrever, entre trancos e barrancos, sustos e delícias, do zero.

25.1.08

Hilda, Hilda...

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo.
E que descanso me dás
Depois das lidas.
Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.



Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer?
E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo.
E agora digo que há um pássaroVoando sobre o Tejo.
Por que não posso Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?



Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura.
O desejo
Este da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê?
Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.


Do desejo, Hilda Hilst.

22.1.08

Hoje

O nosso poeta veio hoje cantar:



a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão




*** *** ***



desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando
nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando
não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando
nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo



E canta também Amor Bastante, lá embaixo.


Para você, para nós.

20.1.08

Ficção, me dê ficção!

Um amigo querido, Fernando B., me perguntou o que eu queria dizer com o post do dia 8.11.07, em que coloquei a foto de um livro com as páginas abertas, e uma frase assim: "E um dia ela se levantou, exausta de realidade."
Quis dizer isso mesmo, Nando:
a realidade às vezes exaure a gente.
Precisamos de ficção, ficção, ficção.
E um dia nos levantamos, querendo uma janela que não seja a do quarto, a da parede. Queremos uma janela no livro, no filme, no quadro, na foto, no palco.
Em relação à literatura, me parece que, às vezes, os escritores estão mais preocupados em realizar (no sentido de realizar o real) do que de fabular, no sentido de inventar, fantasiar.
Mais do que "escrever bem" (o que é isso, afinal?), o desafio maior do escritor me parece ser criar um universo próprio. Conhecer e afirmar a sua voz e visão literária. Para isso é preciso mais do que escrever uma frase boa ou outra, não? O mergulho é muito maior. É um mergulho que rompe a fina e bruta película do real, e, de uma forma estranha, tem acesso a ele através do imaginário.
E, também, de forma estranha, o imaginário está inevitavelmente ligado ao que a gente lê, vê, vive, sobrevive, sobrevoa.
É uma transposição do real que, como leitora, sinto falta... Entrar numa janela, sair da realidade para voltar a ela depois diferente...
O Nando também me perguntou o que eu encontro em um livro que me faz gostar dele. Fiquei pensando nisso... É o tema? Não. São os personagens? Não. É o enredo? Não. É... um jeito de dizer e ver isso tudo: tema, personagens, enredo. Sim, é o estilo. Sim, é a linguagem. Mas, principalmente, é uma fagulha de vitalidade que está por trás do texto. É uma faísca que deixa a leitura sempre viva, não importa os olhos cansados ou viciados em ler. É o que podemos chamar de originalidade, na forma de outra palavra melhor, ou de autenticidade.
Talvez seja quando o autor absorve o real como mais um elemento para a sua criação, não como o elemento.
Quando ele/ela, na escrita, mergulha na realidade, vive, sobrevive e a sobrevoa.
Então, imagina.

17.1.08

Estranho Verbo

Um texto que escrevi há muito muito tempo, quando havia mais sombra do que luz, quando a luz demorava tanto, quando a sombra nunca era refresco e descanso, quando muitos verbos ainda eram estranhos para mim, principalmente este que agora brilha...




Estou sem mãos para o meu desamparo. Ergui os braços mais cheia de ar do que de coisas. Entendi: fui muito leve até onde vai um sentido. Mas agora cai o peso. E cai como se não houvesse queda mais provável ou libertação mais impossível. Grave engano esse: o de construir o de pertencer. Parece que não há lugar no qual se encaixe essa urgência. Eduquei-me silenciosa e no escuro a gozar com pequenas carícias. Sou delicada em minhas impurezas. Cuido para que depois da língua venha sempre o verbo. Não apenas a saliva e os lábios. Ah, o amor. Abri o peito as pernas para que ele se deitasse sobre dentro. E ele se deitou. Enfim.


Nessa noite não haverá nada mais breve. O resto é porém. Cultivei alegrias. Talvez seja apenas isso que posso dizer: que as cultivei. Depois a palavra veio como um grito. E assim eu não gosto. O som desprovido de uma forma parece um movimento sem ação dentro. Gritar é o primeiro e último estágio de uma comunicação perdida. E com esse susto (o de não dizer) não posso. Dói o silêncio que não se esvazia.

Ah quando ele não tinha nome e eu não precisava chamá-lo. Quando não havia tanto esse querer de um outro aqui. Era bom. No entanto era como não saber uma coisa e intuir quase no faro que em algum lugar existe essa coisa e que é preciso conhecer. Enquanto permaneceu o mistério eu vivia num estado certo, mas assim como se esperasse a qualquer momento uma incerteza. Então. Como uma criança que acorda cedo para ir à missa e porque é manhã e estava há pouco dormindo vai cantando hinos até a igreja. E porque a sua voz é linda e naquela semana carrega ainda intacto o orgulho de não ter cometido nenhum pecado nem dos grandes nem dos pequeninos vai seguindo o seu caminho certa do sermão da missa e lá no fundo na pontinha do sentimento que a fez se comportar tão bem vai esperando encontrar todo forte e altivo no altar não o padre nem os santos muito menos a hóstia ou os coroinhas – mas Deus. Porque está de jejum e estava há pouco sonhando. E no seu sonho havia música. Ela vai esperando um milagre. Essa criança sou eu.

15.1.08

quando eu vi você

tive uma idéia brilhante

foi como se eu olhasse

de dentro de um diamante

e meu olho ganhasse

mil faces num só instante


basta um instante

e você tem amor bastante


um bom poema leva anos

cinco jogando bola,

mais cinco estudando sânscrito,

seis carregando pedra,

nove namorando a vizinha,

sete levando porrada,

quatro andando sozinho,

três mudando de cidade,

dez trocando de assunto,

uma eternidade,

eu e você,

caminhando junto



(Amor Bastante, Paulo Leminski)

11.1.08

Livros, livros, livros!

Todo início de ano faço uma lista imaginária dos livros que quero ler por 12 meses. Sem contar os espaços vazios para aquele livro que você nem imaginava mas que cai na sua mão sem pedir licença e vale, às vezes, mais do que um livro esperado. No ano passado, foi o caso de O que eu amava, de Siri Hustvedt. Comecei a ler mais por curiosidade, já que ela é a mulher do Paul Auster. Acredito que a curiosidade, na maioria das vezes, é recompensadora. Logo esqueci com quem a autora é casada, logo esqueci quem é a autora. Acredito também que esta é uma das melhoras coisas que podem acontecer quando você abre um livro: ficar com os personagens e pronto.
Aconteceu também com As boas Mulheres da China, de Xinram. As histórias são impressionantes, fortes, comoventes e muito bem escritas. E tem uma história dentro da história: A autora estava saindo de uma aula quando alguém se aproximou por trás, bateu em sua cabeça e a derrubou no chão. Era um assalto. Na bolsa, a única cópia do manuscrito que ela tinha acabado de escrever. Isso foi em 1999, vamos imaginar que não se fazia backup com a constância de hoje, ou outro motivo qualquer. O fato é que o ladrão queria levar a bolsa que estava com a única cópia do seu livro. Como qualquer escritor pode imaginar e compreender, ela reagiu ao assalto, chutando o ladrão, que chutou de volta e sairam os dois rolando pela rua. A sorte dela, que rezamos seja de todos os escritores, é que várias pessoas se intrometeram na confusão e deteram o bandido. Quando o homem se levantou, ela percebeu que ele tinha mais de um metro e noventa! E talvez não estivesse realmente armado. Mas... faz diferença?
Ao saber do ocorrido, o policial perguntou por que ela tinha arriscado a vida por uma bolsa. Ao ouvir a resposta, retrucou: um livro é mais importante do que a sua vida?
Não era a questão de ser mais importante. Claro que não era. Mas no segundo em que reagiu, pensava no esforço emocional que teria para escrever tudo de novo. A escrita do livro tinha sido uma experiência profunda e dolorida, e Xinran, simplesmente, não poderia passar por ela de novo. E aquele era um livro que tinha que existir, que ela tinha que fazer. Então, não havia saída. Neste segundo em que reagiu, isso foi, sim, mais importante.
Agora estou lendo Todos os dias, do português Jorge Reis-Sá. Não terminei, mas estou encantada com muitas passagens. Acima de tudo, é uma linguagem tão viva e própria. Um universo tão bem construído, como se não tivesse sido nenhum esforço construir. Simplesmente, está lá. Existe, respira, experiências, personagens, autenticidade. Quando li o José Luiz Peixoto e a Felipa Mello tive a mesma impressão. E certa sensação de que a literatura contemporânea portuguesa, em alguns sentidos, anda bem mais consistente do que a brasileira.
As próximas leituras são Histórias de literatura e cegueira, de Julian Fuks; Toda Terça, de Carola Saavedra; Corpo Estranho, de Adriana Lunardi. Em busca de Klingsor, de Jorge Volpi. Mortes imaginárias, de Michel Schneider, e o que mais aparecer pelo caminho.
E reler alguns livros queridos, que foram importantes para mim: Os dragões não conhecem o paraíso, de Caio Fernando Abreu; Todos os fogos, o fogo, de Cortázar; os contos de Mansfield e de Theckov, as crônicas de Nelson Rodrigues, principalmente, O óbvio ululante e Menina sem estrela.
Ai, será que vai dar para sair de casa, ver o sol, andar de bicicleta, ir à praia, tomar sorvete?

21.12.07

CONTO DE NATAL

Há alguns anos escrevi para a ótima e extinta revista Veredas do CCBB um conto de natal. Mais cinco escritores participaram: Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Luiz Villela, Rafael Cardoso e Miguel Sanches Neto. É curioso que os textos, inclusive o meu, não são nada otimistas. E mais curioso ainda que eles cairam na rede e são veiculados por aí, como um "belo conto de natal".


Para ler todos os contos:
http://www.paralerepensar.com.br/natal_contos.htm


Porque é.



Andou com pressa sem hora marcada para nada. Virou as esquinas pensando em como era bom virar alguma coisa. Tropeçou num treco qualquer no meio do caminho e só depois viu não se tratar de uma pedra. Os jornais que embrulhavam a pessoa deitada anunciavam uma liquidação imperdível. Ótimo. Tinha mesmo que comprar presentes. Corra, corra, não perca! Imediatamente, correu, embora não soubesse o endereço. Passou por uma mulher linda, um homem lindo, uma criança linda. Pensou: o mundo é bom. E a cidade cintilava com as luzes extras sem nenhuma beleza nem economia.

No meio da multidão, esbarrou em alguém que conhecia. Rapidamente, não se cumprimentaram. Na esquina, desejou felicidades à mocinha que lhe vendeu um sanduíche. Depois, sentiu, de repente, uma alegria. Mal podia esperar a noite. Gostava da comilança, da família reunida. Nessa hora, cresceu um buraco em seu peito que o fez logo pensar em doenças. Em seguida, imaginou curas. É o susto do tempo. De tudo parecer a mesma coisa. E é também a dor desse susto. São as horas corridas que se adiantam tanto, e para quê? Para todos os anos caírem sempre no mesmo dia. Era o que pensava. Só esperava que, se alguma vez morresse, fosse quando estivesse muito, mas muito doente, pois achava morrer saudável um verdadeiro desperdício. Calculava, no futuro, que seria capaz de saborear cada instante. Em pequenas ambições, vislumbrava roçar a carne vida.

Olhando assim, é uma pessoa como outra qualquer. Carregando um desejo como qualquer outro. Arrastando e alimentando o desejo. Deixando ele crescer. Invadir o peito, arrepiar os pêlos, subir à cabeça, desfiar os cabelos. É um perigo querer tanto assim. Talvez seja a época do ano. Você sabe. Aquela que nos faz gastar o dobro do dinheiro que temos. Aquela que nos faz pensar neles. No homem que morreu na cruz e no que anda pelo mundo inteiro, por incrível que pareça, de trenó. Um teve, no peso de sua dor, a dor de todos. O outro, velhinho, vive até hoje num lugar muito longe e frio. Coitados. E ainda têm que agüentar os teus pedidos. Esses desejos que vocês carregam, arrastam, alimentam. Vejam só:

Carregar - Ato de levar ou conduzir uma carga. Tornar sombrio, triste. Tornar mais intenso, mais forte. Exercer pressão sobre.Arrastar - Ato de levar à força. Mover com dificuldade. Rastejar. Falar morosamente. Atrair, trazer atrás de si.Alimentar - Dar alimento a. Nutrir, sustentar, conservar. Incitar, incrementar. Manter, prover.

Então o homem carregou os presentes até em casa, a mulher deixou mais forte o tempero da comida, o avô moveu com dificuldade a própria perna, a avó alimentou as crianças, e a menina comeu tudo, nutrindo a expectativa de enfim, naquele dia, ganhar um presente impossível porque era Natal.

Então o avô conseguiu sustentar com o próprio corpo o peso dos anos, a mulher falou morosamente com o marido, o homem exerceu pressão sobre a esposa, trazendo-a atrás de si até o quarto, a avó rastejou a história mais comprida para as crianças, e o menino deu alimento a cada palavra, achando que naquele dia tudo em casa estava mais calmo e bonito porque era Natal.

Então a menina sustentou que Papai Noel não existia, o menino incrementou achando que aquela barba de algodão era mesmo patética e ridícula, o avô tornou-se sombrio porque perguntava e ninguém respondia, a avó incitou a filha a cuidar dos filhos e da cozinha, a mulher entristeceu, pois ela e o marido às vezes não se entendiam, o homem carregou o medo de perder tudo aquilo que nem tinha tanta certeza assim de que tinha, e todos prometeram evitar discussões naquele dia porque era Natal.

A pele brilhava. Perfeita. Se a levantasse apenas um pouquinho, encontraria a carne branca e macia. Igualmente perfeita. Nesse momento, a boca certamente já estaria transbordando de água. Água de fome e vontade. Uma faca grande e bem afiada faria o corte preciso. Com muita calma, penetraria nela o garfo de enormes dentes e a deitaria languidamente no prato. Ao seu lado, para breve companhia, um pouco de arroz, farofa e maionese. Pronto, perfeito. Agora, a boca aberta já estaria à espera, assim como todas as glândulas e todos os dentes. Se houver sorte e dinheiro, 32 inteiros ou consertados. Mas, antes, outro corte. Menor, mais delicado, mais sensível. Enfim, o garfo, o pequeno, espetaria a sua pressa na carne. E a boca ávida, como em nenhum outro dia, engoliria tudo. Ao seu lado, em silêncio, a sua mulher fazia o mesmo. Ao lado dela, fazia o mesmo a sua filha. E o filho. Na outra ponta, o seu pai, mãe, e pai e mãe dela. Na casa vizinha, dava para ouvir o mesmo. E o mesmo, o mesmo. Alguém riu, todos riram. Alguém disse Feliz Natal, todos repetiram. Alguém estendeu um presente, todos estenderam. Alguém anunciou que ia dormir, dormiram. E o céu deste mundo brilhava, sem reluzir nenhuma estrela.

14.12.07

O PINTINHO



Eu estava na alfa e ia encarar a minha primeira prova. Era de leitura. Ninguém sabia qual história a gente ia ler, a surpresa fazia parte do teste. Também fazia parte a leitura ser para a diretora da escola, não para a nossa professora querida. Sabe-se lá de onde vem esses requintes de tortura, mas era assim. Lembro que estava todo mundo elétrico, a diretora tinha cabelos brancos em cachos de caracol em sua cabeça. Podia parecer um anjo, mas não era. Era uma mulher muito ocupada e muito séria. Para aumentar o requinte da nossa prova-tortura, ficávamos todos na sala, em nossas carteiras até sermos chamados pelo nome. Aí nos levantávamos e seguíamos a nossa professora querida por um corredor que lá pelos meus cinco anos achei enorme. Uma porta azul fechada então era aberta e lá estava: a diretora que de anjo só tinha os cabelos.
Lembro que atravessei o corredor comprido com a mesma ansiedade dos meus amigos. Entrei pela fronteira azul com a mesma expectativa assustada. Mas assim que vi os caracóis brancos, tentei me recompor. Olhei a diretora com desconfiança, sem deixar ela perceber que eu sabia que ela sabia que eu sabia muito bem que de nós duas ali, era eu, sentada na cadeirinha amarela, a única em desvantagem.

E foi quando tirei os olhos da diretora para olhar a prova.

E, por uma dessas mágicas que acontecem e transformam uma coisa em outra, a prova de repente não era mais uma prova: era um livro.

E a diretora sumiu com seus cabelos de caracol branco e com a sua tortura requintada para algum reino longe da porta azul.

Ali, ficou só a história. O Pintinho.