8.11.07
24.10.07
3 X Artaud

Para Artaud, morrer de peste não era mais terrível do que morrer de mediocridade, de espírito mercantil, da corrupção que nos rodeia. Queria que as pessoas tomassem consciência de que estavam a morrer. Metê-las à força num estado poético.
Anaïs Nin em fragmento extraído do livro Eu, Antonin Artaud, coletânea de textos de Artaud,p.18-20.
Assim, a verdadeira beleza nunca nos atinge diretamente. E é assim que um pôr-do-sol é belo por tudo aquilo que nos faz perder.
Carta de Antonin Artaud a Henri Parisot, mencionada por Cortázar em Morte de Antonin Artaud, Obras Críticas II, p.144.
10.10.07
Dostoiévski
4.10.07
Estranha ficção, fricção
Lembrando disso, joguei as cem páginas no lixo e respirei fundo. Larguei as pesquisas e respirei fundo. Afoguei os salva-vidas no mar e respirei fundo. Esqueci que meus personagens foram pessoais reais e respirei fundo. Matei a idéia de que contava uma história "acontecida" e respirei fundo. Muito fundo. Destrui todas as certezas, todos os fatos estabelecidos e comecei. Fui escrevendo como se não houvesse nada a minha frente. O vazio. Foi preciso destruir toda a lógica consensual do que seria o enredo, foco narrativo, os personagens, blá blá blá e etc e tal para não ter nada nas mãos, a não ser a imaginação e a linguagem.
E agora? E agora? Comecei a me perguntar a cada página, a cada novo dia diante do PC.
Então, de alguma forma obscura, suspreendente para mim, as palavras vieram e o romance se fez.
Foi exatamente isso: no momento em que se tornou imprevisível, aconteceu.
29.9.07
meus escritores
... Seguindo os passos de Cortazar: o que há em determinado texto que o torna especial para você?
Por quê Clarice, Cortazar, Calvino, Nelson, Becket, Kafka, Guimarães, Hilda, Mansfield, Caio, Faulkner, Dostoiévski, Tchekov, Ionesco, Artaud, Saroyan, Pessoa, Barros, Marques...?
13.9.07
A marquesa
Dostoievski, em Crime e Castigo. "Os móveis, de madeira amarela, eram todos muito velhos. Um sofá com um grande espaldar virado, uma mesa de formato oval em frente ao sofá, um toucador e um espelho encostados num vão de parede entre duas janelas". Para Breton, a descrição é um recurso inútil e vazio, que nada expressa ou revela. Serve apenas para retratar um ambiente, como um quadro realista. Não constrói nenhuma relação do personagem com o espaço, nem com a trama desenvolvida.
E a brincadeira:
A marquesa saiu às cinco horas. Os móveis, de madeira amarela, eram muito velhos. A janela está fechada desde ontem. Havia um toucador e um espelho encostados, num vão de parede.
A marquesa saiu? Às cinco horas? Os móveis, de madeira amarela? Eram muito velhos. A janela está fechada? Desde ontem. Havia um toucador? E um espelho. Estão encostados num vão? Na parede.
A marquesa? Saiu?
Às cinco horas.
E os móveis?
Desde ontem.
A janela?
Fechada.
E um toucador e um espelho?
Encostados em vão na parede.
Marquesaaaaaaa !!
Saiu!
Ontem?
Pela janela.
Os móveis encostados em madeira amarela.
Às cinco horas fechadas, velhos em vão no espelho.
Desde muito.
21.8.07
porque sim
Ela disse que o mundo não tinha salvação e escrevia exclusivamente para salvar a si própria.
Ele aconselhou não contar com isso, que escrevesse apenas para continuar vivendo.
Ela respondeu que continuar é um motivo justo para se escrever, mas que para viver não, a vida exige muito mais do que apenas o continuar dos dias.
Ele não quis pensar sobre o assunto, preferiu escutar outra pessoa que disse que escrevia para se distrair da realidade.
Ela se espantou, nunca havia cogitado a hipótese: se distrair da realidade. Havia cogitado fugir, escapar, esquecer.
A outra pessoa continuou: escrevo para fazer graça.
Ele se coçou: como?
Graça com a vida, ora.
Ela riu, escrever é coisa séria.
Riram.
É coisa profunda, de assustar.
É pelos sustos que escrevo, disse outro homem. O mundo vai me assustando e eu vou escrevendo o que me assusta.
Só escrevo quando estou triste, outra mulher falou.
Eu, só quando estou feliz, ele disse.
Não sei escrever com um problema pendente, alguém comentou.
E uma mulher: Já eu penduro os problemas num canto da cabeça para escrever.
E outros:
Eu escrevo para entender. Eu escrevo porque não entendo. Eu escrevo para inventar.
Eu escrevo para destruir. Eu escrevo porque não sei. Eu escrevo porque não quero saber.
Eu escrevo porque gosto. Eu escrevo porque quero. Para esquecer. Para lembrar. Para me expressar. Para me exibir. Para me ocupar. É o que sei fazer. É o que acho que sei. Porque sofro. Porque amo. Porque sonho. Porque desejo. Porque odeio. Porque digo. Porque não admito. Porque não calo.
Eu escrevo, a moça disse, porque tenho a certeza que ninguém vai ler. Escrevo só para mim.
Eu não escrevo para ninguém, nem para mim mesmo, o moço completou.
Já eu simplesmente não escrevo, outro homem enfatizou. Não vou escrever num país com mais escritores que leitores.
E com mais escritores que bons livros, outra pessoa inferiu, provocando vaias e aplausos.
Eu escrevo por causa disso tudo, ele falou.
E eu escrevo apesar de tudo, ela retrucou.
Eu escrevo contra. Eu escrevo com.
Eu escrevo para. Ao encontro de. Em busca de. Eu escrevo por.
Eu escrevo por que.
Eu escrevo.
30.7.07
Um dia qualquer
Num dia quente de inverno, ele sonhou em ir à praia de protetor solar e óculos escuros, como se faz num dia quente de verão. Não se preocupou em levar casaco ou guarda-chuva, sem imaginar que alguns minutos de sol era o que lhe restavam antes do vento arranhar com areia as lentes escuras e antes do mar derrubá-lo e engoli-lo com suas ondas gélidas.
Num dia qualquer, ele deixou as janelas fechadas e decidiu escrever, como se faz às vezes em um dia qualquer. No seu texto, os dias de verão eram sempre muito quentes e os dias de inverno muito frios. O sol queimava e o frio gelava perfeitamente onde se devia esfriar e esquentar.
Nesse dia, não havia dúvidas.
Nesse dia, ele não sonhou.
No dia seguinte, foi encontrado morto e sozinho, como acontece no dia seguinte a morte, quando se mora sozinho.
Disseram que morreu asfixiado pela fumaça dos milhares de papéis que queimou, provavelmente na tentativa de fazer uma fogueira.
Disseram que morreu tentando abrir as janelas que ele próprio havia trancado com cadeado e jogado as chaves fora.
Encontraram retalhos das páginas incendiadas com histórias nas quais as pessoas morriam congeladas no inverno e queimadas no verão.
Leram as frases sobreviventes, com imensa piedade.
Tão jovem, alguém disse.
Em seguida, foram cuidar do enterro, que não havia dúvidas de que aquele homem estava mesmo morto.
5.6.07
O martelo de Cortázar
2.6.07
A PEQUENA MORTE_ O conto
Para quem não conhece, deixo aqui uma palhinha da Pequena Morte, com saudades, muitas saudades, desta moça que o escreveu.
Ela apenas sabia : No início, era uma menina.
Uma menina que foi crescendo com uma angústia das grandes.
Quando cresceu para sempre, percebeu que não tinha tamanho. Não tinha limites para o que sentia. Seu coração arrebatava-se com a vida. Espantava-se com tanto. Tinha fome, de tudo, por tudo. Olhava o mundo com os olhos arregalados. Se pudesse, morderia as carnes, possuiria as matérias. Mas, geralmente, apenas passava o olhar sobre todas as coisas, consumindo-se com o que não podia consumir.
Pensou na menina de tranças que fora.
Lembrou que quando pequena tinha uma brincadeira predileta : caçar formigas.
Enquanto mastigava o chiclete ia esmagando as formiguinhas. Fazia isso sem pensar, quase sem saber que fazia. Quando descobriu que matava e ainda, assim, tão distraída do próprio crime, rodopiou até não agüentar ver tudo tão torto. E caiu aos pés do formigueiro.
Deitada, sentiu o movimento das bichinhas sobre a terra. Próximas de suas pernas, de seu rosto. Teve medo. Mas o seu coraçãozinho apertava-se era de culpa. Resolveu não se mexer. Percebeu que o aperto no peito era mais uma sensação do que uma certeza. Achou que sentiria melhor a culpa se a sentisse na carne. Estava decidida a enterrar a cabeça na terra, a entregar o seu corpo às formigas. Então, muito lentamente, abriu os braços, para receber o castigo. Também apertou os olhos até onde pôde. Queria sentir muita dor.
Ao chegar em casa, correu para a cama, onde ardeu de febre, de desvarios.
Doíam-lhe as picadas, a culpa.
Depois, foi com uma agonia mortal que se levantou e, em passos muito lentos e
desequilibrados, como ainda em delírio, se dirigiu, tonta, tonta, para o quintal. Certa de que não havia outro lugar para ir.
No início, sentia pena das formigas mortas.
Mas logo afligia-se com as vivas.
O prazer, ou melhor, o alívio, era maior do que a pena.
Melhor do que brincar de boneca era brincar de formiga.
Ou então, de galinha.
Não, não matava galinhas. Quem fazia isso era a empregada Jacira. Ela apenas as via morrer. Precisava vê-las morrer.
Quando ouvia que teriam frango para o almoço, corria para o quintal atrás de Jacira.
Primeiro, só as olhava.
Achava-as lindas assim tão inocentes do seu destino.
Depois, observava cada uma, tentando adivinhar qual delas seria a vítima.
Então escolhia a de cara mais espantada.
E vinha Jacira sem erro na galinha escolhida.
Era sempre assim.
Jacira insistia para que ela voltasse para casa, mas ela teimava em assistir tudo até o final. Gostava de ver o bicho lutando. Também gostava de vê-lo perder as forças. Mas, principalmente, o que mais gostava era quando ele se entregava à morte. E o seu olhar era tranqüilo e certo. Ela esperava até ver toda a agonia terminar no último suspiro.
Terminava também a sua agonia. Era o alívio.
No almoço, era com curiosidade e prazer que mastigava a carne da vítima. Procurava o gosto da morte entre os temperos. Cultivava em segredo uma mania : sempre fechava muito bem os olhos antes de engolir. E nunca comia um pedaço só. Também fazia questão da carne mal passada. A sua mãe sorria e elogiava o seu apetite. Ela também sorria. E olhava os adultos. Perguntava-se se eles se sentiam assim tão febris e felizes como ela. Mas eles comiam de um jeito tão distraído de matar formigas que ela percebeu que era inútil perguntar. Eles não sabiam.
Não sabiam o que ela sabia. Ela, que sentia uma parte quente do mundo dentro de si, intuía algum mistério que ainda não tinha nome em seu vocabulário. Mas era bom, muito bom.
Lembrou de um outro episódio : Estava deitada na grama, feliz, entre as formigas. Abraçava o chão, de barriga para o centro do mundo. Respirava a terra, de costas para o céu. Foi então que caiu bem na sua frente, a alguns centímetros da sua cabeça, um passarinho ferido, quase morto. Um menino veio correndo. Ele parou ao seu lado e inclinou-se atento sobre o bichinho.
Ela viu o estilingue em suas mãos.
O que sentiu, nem depois, com mais idade e palavras, pôde descrever.
Era o terror. O encanto.
Aproximou-se do menino. Esperaram juntos, de cabeças unidas, a última respiração do passarinho.
Quando o bichinho morreu, ela suspirou forte demais para uma menina.
Ele então a olhou pela primeira vez. Um olhar para sempre.
Mas logo inclinou-se, pegando o passarinho. E carregou-o com tanto cuidado e delicadeza que ela, hipnotizada por esse gesto, não conteve a sua dúvida.
- Foi você, não foi ?
Mas ele não disse nada.
- Por quê ? – ela insistiu.
E esperou a resposta que poderia salvá-la para sempre. Mas ele não lhe deu atenção, já estava longe.
Ela olhou o pequeno sangue na grama.
Ainda o viu antes de descer a ladeira. O seu primeiro amor.
Correu e alcançou-o mais adiante.
Lá estava ele, com uma pedra na mão, cavando um buraco na terra.
Ela aproximou-se, tímida.
- Posso ajudar ?
Ele deu de ombros.
- Pode.
Ela ajudou, maravilhada. Colheu flores para o velório, lembrou de uma oração para o enterro. Cantarolou baixinho, enquanto o observava. No meio da cerimônia, olharam-se, numa espécie de êxtase.
Ele tinha o jeito dos que sabiam.
Levou-o ao seu quintal para verem juntos Jacira com as galinhas.
Ele, como ela, adivinhou qual delas seria a vítima.
Ele, como ela, mastigava muito antes de engolir.
Ele, como ela, também se divertia com as formigas.
Estavam unidos para sempre.
Mas, um dia, se separaram. Foi no início da adolescência, quando a família o levou para longe. Ela se despediu, em prantos. Dentro do carro, ele a viu desaparecer no vento e na poeira da estrada. Pela primeira vez, tiveram medo de permanecerem sempre famintos. Eram crianças, mas já percebiam o que os mantinham vivos. Ele corroeu-se todo por dentro. Ainda não tinha aprendido a chorar.
A chorar ela aprendeu logo. Foi crescendo rápido entre as lágrimas e a raiva. Não tinha diversão que aplacasse a sua fúria. Não tinha pessoa que a fizesse esquecer. Estava sozinha.
23.5.07
Sobre escrever
É que a vida exige. A vida exige. exige.
Às vezes, também é preciso exigir um pouco.
É que o tempo espanta. Abrir a página e me sentir tão dentro do mundo em meus dedos. Como se as horas do lado de fora valessem por poucas coisas. Coisas seguradas à força, a forcéps, a garras e dentes.
Minhas âncoras.
É que a vida existe. A vida existe. existe.
Às vezes também é preciso existir um pouco.
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Pomo (De Mínima lírica)
Da vida só têm substância
a casca e o caroço.
No meio só tem amido,
embromações do carbono. Porém todo o gosto reside
nessa carne intermediária,
sem valor alimentício, sem realidade, sem nada.
É nela que os dentes encontram
o que os mantém afiados;
com ela é que a língua elabora
a doce palavra.
Sonetilho de verão
Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A idéia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.
(Paulo Henriques Britto)
25.4.07
CLARICE
Sou incapaz de me sentar diante da máquina e de ir desenvolvendo um esquema pré-estabelecido, eu simplesmente escrevo o que vem. É assim: eu tomo notas de frases que me vêm, vejo que elas se ligam umas com as outras e já começo a escrever o livro. Não escrevo desta minha maneira pra ser de vanguarda, pra romper com os padrões literários, nada disso. Por exemplo: eu já fui hermética e hoje acho que não sou mais, a coisa vai-se espairecendo sem premeditação. Quanto ao adjetivo qualitativo, só os outros é que podem dar, eu não posso dar.
