Escrever este romance tem me exigido um tempo imenso, dilatado no próprio tempo, impossível para os compromissos diários, incompatível com a realidade. Um tempo implacável, que pede silêncio e solidão. Pensamentos obscuros, sentimentos intensos. O olhar parado sobre as coisas, esperando, esperando, esperando... o quê? De repente, sei. São as palavras e as imagens que chegam, precisas, como se estivessem se organizando no escuro antes de aparecer. Me arrepia tudo isso. Nunca senti esse deserto ao escrever. Um deserto povoado pelos personagens. Diariamente, eles vão se tornando cada vez mais vivos, mais fortes do que as pessoas. São quase quatro anos, afinal. É um tempo que nao reconheço nas páginas escritas. É como se existissem tempos diferentes entre a criação e a criatura.
Tudo que faz parte do imaginário - do processo criativo - se torna real.
O mais real. Dá para ver, tocar, cheirar, falar, responder, escutar.
Virgina Woolf ouvia vozes, agora entendo o porquê.
São fantasmas sem espíritos. Fantasmas da própria imaginação. A louca da casa, como diz Rosa Monteiro.
21.4.06
10.1.06
Cortázar
"A literatura é para mim uma atividade lúdica, lúdica naquele sentido que dou ao jogo, à brincadeira, mais aquilo que você conhece bem: uma atividade erótica, uma forma de amor."
3.1.06
Por uma literatura sem pudor
"O escritor contemporâneo, inspirado pelo escritor rebelde de Cortázar, impõe a si mesmo o desafio expressivo que percebe de sua época, de seu tempo, e que se torna a sua saga pessoal. Para ele, a aventura de escrever não se limita a colocar palavras no papel e contar bem e com alguma graça uma história (essa habilidade é o início e não o fim de sua vocação). Tampouco é utilizar as mesmas armas agressivas do escritor rebelde contra a tradição, já que as mesmas já se tornaram com o tempo, uso e repetição também uma espécie de tradição. Este escritor percebe que muito já foi feito, desfeito, dito, redito e sente no ato de escrever um tipo de saturação do próprio verbo. Há tantas formas possíveis de se contar uma história que ele se pergunta se todas já não foram feitas e refeitas exaustivamente nas últimas décadas.
Enquanto a tradição exalta a linguagem como a expressão mais bela e precisa do ser humano e de seus costumes, a vanguarda quer destruí-la em sua superfície de vidro e gelo, perfurar o seu conteúdo e alcançar o cerne que exprima além dos costumes humanos. Por sua vez, enquanto a vanguarda faz a escavação profunda do verbo, desconstruindo muitas vezes significantes e significados, na busca de criar uma linguagem original para cada situação a ser expressa, o escritor contemporâneo une a esta atitude, que ele não vê mais como um manifesto, mas como uma proposta artística, uma profunda desconfiança de que mesmo as mais diabólicas distorções, as mais radicais experiências dos modos verbais, que buscam exprimir a vida humana da forma mais vital e original possível, contêm dentro de suas explosões e brilho o elemento corrosivo da autodestruição. Dessa forma, além do desafio de, diante de todas as realizações literárias passadas e presentes, criar uma linguagem própria, uma escrita singular, o escritor contemporâneo ainda pode descobrir no meio do caminho que, mesmo cavando o túnel e abrindo espaço dentro da terra rígida, encontrará inevitavelmente dentro da própria linguagem limites comunicativos intransponíveis. [...] E, ao se assumir a limitação como parte integrante da própria natureza do verbo, esta se torna, por sua vez, expressiva. E alcança um grau de comunicação estabelecido não só por aquilo que se diz, mas, principalmente, pelo o que se deixou de dizer. [...] de alguma forma, o elemento corrosivo - a impossibilidade- incorpora-se ao processo comunicativo e este comete a mágica proeza de comunicar, não só o que é possível, mas também a própria incomunicabilidade." (p.42-43)
Este é um trecho da minha dissertação, chamada Por uma literatura sem pudor. É sobre o escritor contemporâneo diante das experiências estéticas da vanguarda e da tradição. A idéia é a de que escritor contemporâneo tem o desafio mais do que antropofágico de absorver/entender/deglutir/vomitar as propostas e se posicionar diante delas, mas o desafio maior de ultrapassá-las, em busca de sua voz original. Esse esforço de cavar o túnel da matéria já estabelecida na linguagem literária e tentar sair do padrão (da vanguarda ou da tradição) na busca de uma voz narrativa realmente própria e autêntica é o trabalho mais belo e desafiante do escritor contemporâneo.
Para isso, é necessário uma posição do escritor diante da história literária. Essa posição indica a formação de uma proposta artística. Um diálogo que se cria diante de tudo que já foi feito na linguagem.
No meu entender, é clara, de maneira geral, a forte continuidade de uma linha estética mais tradicional. Porém, há escritores que apontam em seus textos outros desejos expressivos, outras referências artísticas. Em seus trabalhos, percebe-se que essa inquietação não se satisfaz com os limites da representação realista, evidenciando a noção de que esta possui ferramentas expressivas para e de uma época específica que hoje não dão conta, nem poderiam mesmo dar, das necessidades e possibilidades das relações e vidas contemporâneas.
Se a tradição não dá mais conta do recado, com suas descrições e explicações, o desafio é entrar no caminho da experimentação da linguagem, o mais estimulante e criativo, sem se deixar seduzir demais por ele, a ponto dele se tornar o fim e não o início do caminho. Que seja o início da busca pela voz original do escritor, e não o objetivo principal, experimentar por experimentar. Que o objetivo principal do escritor seja encontrar a sua voz narrativa singular. O seu jeito único de ver e dizer o mundo.
Enquanto a tradição exalta a linguagem como a expressão mais bela e precisa do ser humano e de seus costumes, a vanguarda quer destruí-la em sua superfície de vidro e gelo, perfurar o seu conteúdo e alcançar o cerne que exprima além dos costumes humanos. Por sua vez, enquanto a vanguarda faz a escavação profunda do verbo, desconstruindo muitas vezes significantes e significados, na busca de criar uma linguagem original para cada situação a ser expressa, o escritor contemporâneo une a esta atitude, que ele não vê mais como um manifesto, mas como uma proposta artística, uma profunda desconfiança de que mesmo as mais diabólicas distorções, as mais radicais experiências dos modos verbais, que buscam exprimir a vida humana da forma mais vital e original possível, contêm dentro de suas explosões e brilho o elemento corrosivo da autodestruição. Dessa forma, além do desafio de, diante de todas as realizações literárias passadas e presentes, criar uma linguagem própria, uma escrita singular, o escritor contemporâneo ainda pode descobrir no meio do caminho que, mesmo cavando o túnel e abrindo espaço dentro da terra rígida, encontrará inevitavelmente dentro da própria linguagem limites comunicativos intransponíveis. [...] E, ao se assumir a limitação como parte integrante da própria natureza do verbo, esta se torna, por sua vez, expressiva. E alcança um grau de comunicação estabelecido não só por aquilo que se diz, mas, principalmente, pelo o que se deixou de dizer. [...] de alguma forma, o elemento corrosivo - a impossibilidade- incorpora-se ao processo comunicativo e este comete a mágica proeza de comunicar, não só o que é possível, mas também a própria incomunicabilidade." (p.42-43)
Este é um trecho da minha dissertação, chamada Por uma literatura sem pudor. É sobre o escritor contemporâneo diante das experiências estéticas da vanguarda e da tradição. A idéia é a de que escritor contemporâneo tem o desafio mais do que antropofágico de absorver/entender/deglutir/vomitar as propostas e se posicionar diante delas, mas o desafio maior de ultrapassá-las, em busca de sua voz original. Esse esforço de cavar o túnel da matéria já estabelecida na linguagem literária e tentar sair do padrão (da vanguarda ou da tradição) na busca de uma voz narrativa realmente própria e autêntica é o trabalho mais belo e desafiante do escritor contemporâneo.
Para isso, é necessário uma posição do escritor diante da história literária. Essa posição indica a formação de uma proposta artística. Um diálogo que se cria diante de tudo que já foi feito na linguagem.
No meu entender, é clara, de maneira geral, a forte continuidade de uma linha estética mais tradicional. Porém, há escritores que apontam em seus textos outros desejos expressivos, outras referências artísticas. Em seus trabalhos, percebe-se que essa inquietação não se satisfaz com os limites da representação realista, evidenciando a noção de que esta possui ferramentas expressivas para e de uma época específica que hoje não dão conta, nem poderiam mesmo dar, das necessidades e possibilidades das relações e vidas contemporâneas.
Se a tradição não dá mais conta do recado, com suas descrições e explicações, o desafio é entrar no caminho da experimentação da linguagem, o mais estimulante e criativo, sem se deixar seduzir demais por ele, a ponto dele se tornar o fim e não o início do caminho. Que seja o início da busca pela voz original do escritor, e não o objetivo principal, experimentar por experimentar. Que o objetivo principal do escritor seja encontrar a sua voz narrativa singular. O seu jeito único de ver e dizer o mundo.
29.12.05
livros devoradores
Saudade de devorar um livro e de ser devorada por ele.
De não conseguir largar o coitado. Ficar pensando nele. Sonhar com os personagens. Sentir a falta deles na rua quando o livro está em casa.
A questão aqui não é voltar aos clássicos, como se com eles a fome fosse certa. Não é. Há muitos chatos, há muitos maravilhosos.
A questão não é contrapor clássico X contemporâneo como se agora não se escrevesse livros devoradores. Essa visão seria simplista, anacrônica. Se escreve, sim, livros devoradores.
Nem colocar em pauta a experimentação X tradição, medindo as duas forças e qualificando uma em detrimento da outra.
Até porque entre uma e outra dou a mão aos que colocaram a linguagem ao avesso e ainda tentam levá-la a caminhos originais.
A questão é uma certa percepção de que há uma idéia meio formada de que experimentar na linguagem significa abandonar história e personagens.
Quando digo história, digo experiência, vivência, não uma historinha careta com início-meio-fim. Às vezes a experiência de um segundo na vida de alguém, um pensamento, uma descoberta.
O resultado muitas vezes monótono é uma voz falante e vertiginosa que na verdade não tem vertigem nenhuma dentro de si, apenas o movimento que se acha que a vertigem tem. Muito racional.
Quanto mais leio mais concretizo a idéia de que experimentar na linguagem é experimentar os modos de contar a história, os modos de tratar o personagem, tirar dos parâmetros estabelecidos, fazer de outra forma. É a relação original entre os elementos da escrita que faz a narrativa ser única e apaixonante.
A forma é muito importante, mas ela nasce de algum lugar, e, ao meu ver, não é do escritor. Da vontade pessoal do escritor. Ela nasce do imaginário, faz parte deste lugar que é a literatura.
A literatura é um universo próprio. E, por mais que seja praticamente irresistível, sedutor e fascinante, não é o escritor que mora nesse universo, é a escrita.
De não conseguir largar o coitado. Ficar pensando nele. Sonhar com os personagens. Sentir a falta deles na rua quando o livro está em casa.
A questão aqui não é voltar aos clássicos, como se com eles a fome fosse certa. Não é. Há muitos chatos, há muitos maravilhosos.
A questão não é contrapor clássico X contemporâneo como se agora não se escrevesse livros devoradores. Essa visão seria simplista, anacrônica. Se escreve, sim, livros devoradores.
Nem colocar em pauta a experimentação X tradição, medindo as duas forças e qualificando uma em detrimento da outra.
Até porque entre uma e outra dou a mão aos que colocaram a linguagem ao avesso e ainda tentam levá-la a caminhos originais.
A questão é uma certa percepção de que há uma idéia meio formada de que experimentar na linguagem significa abandonar história e personagens.
Quando digo história, digo experiência, vivência, não uma historinha careta com início-meio-fim. Às vezes a experiência de um segundo na vida de alguém, um pensamento, uma descoberta.
O resultado muitas vezes monótono é uma voz falante e vertiginosa que na verdade não tem vertigem nenhuma dentro de si, apenas o movimento que se acha que a vertigem tem. Muito racional.
Quanto mais leio mais concretizo a idéia de que experimentar na linguagem é experimentar os modos de contar a história, os modos de tratar o personagem, tirar dos parâmetros estabelecidos, fazer de outra forma. É a relação original entre os elementos da escrita que faz a narrativa ser única e apaixonante.
A forma é muito importante, mas ela nasce de algum lugar, e, ao meu ver, não é do escritor. Da vontade pessoal do escritor. Ela nasce do imaginário, faz parte deste lugar que é a literatura.
A literatura é um universo próprio. E, por mais que seja praticamente irresistível, sedutor e fascinante, não é o escritor que mora nesse universo, é a escrita.
26.12.05
De um leitor que não é um qualquer...
Sabe, às vezes a gente se cansa de tanta experimentação...
Às vezes a gente só quer se sentar e ouvir uma boa história...
Às vezes a gente só quer se sentar e ouvir uma boa história...
12.12.05
Uma Menina

Uma menina abria o livro - coração aos pulos - ávida para ver nas páginas vidas, situações, sentimentos que ela não conhecia. Ou conhecia, conhecia muito bem, a ponto de doer de alegria ou de dor mesmo se encontrava no papel o que tinha no peito.
Ler não era nada intelectual para essa menina. Aliás, ela nem conhecia essa palavra. Ler era muito mais uma... aventura... uma brincadeira... um susto?
Ler era uma delícia.
Tanto que essa menina quis logo aprender a escrever. Não porque a escola mandava, mas porque escrevendo ela ia poder fazer suas histórias também.
E fez.
E cresceu.
E crescendo não se sabe porquê a moça foi achando que escrever as histórias era uma coisa muito mais da cabeça do que do... do que mesmo?
Não, não era do coração, isso seria muito sentimental para essa moça tão estudada.
Da imaginação, talvez.
Isso, imaginação pode, porque também se localiza na cabeça, que nem o pensamento, a razão.
Mas a diferença é que a imaginação se faz de muito sonsa, sabe. Finge que vai ficar só por ali mesmo na cabeça, mas de repente dá um pulo e voa.
A moça fica assustada. Esse vôo tem forma? Esse vôo tem estilo? Esse vôo tem ritmo? Esse vôo se basta como vôo? Esse vôo tem influência de outro vôo? Esse vôo já foi feito? Esse vôo voa sozinho? Esse vôo precisa ser refeito? Esse vôo vai ficar voando assim? Esse vôo não pára? Esse vôo não aterriza?
Aterriza, moça.
Aterrizou.
E pode voar de novo?
Pode, moça.
Mas, como?
Ué, a moça não estudou tanto?
Estudei, mas nos estudos não tem essa parte, de alçar vôo. Nos estudos a gente só pensa do vôo quando já é vôo, não antes de ser. Antes de ser, eu não sei.
Ninguém sabe, minha menina.
Então?
Não era melhor ter deixado voar?
pensar e escrever
Pensar sobre a escrita? É bom. Estudar autores, textos, estilos, técnicas. Mas há a hora de deixar os dedos correrem apenas. Apenas sentir. Apenas escrever. Sem pensar no resultado. Sem pensar na opinião das pessoas. Sem lembrar que existem pessoas. Sem lembrar de outro universo a não ser aquele que está sendo escrito/criado. Escrever sem perseguir nada. Querer nada. Escrever apenas. Deixar as palavras saírem, puro movimento sem elaborações. Palavra como respiração. Abandonar o intelecto. O intelecto quer sempre uma forma, um estilo, uma direção. Ser direção nenhuma. Deixar que a forma se faça por si mesmo, se se fizer. Deixar o amorfo, se for o caso. O amorfo é forma sem forma. Deixar a palavra nascer da própria necessidade dela. Do próprio grito, da própria urgência, do próprio sonho.
Lembrar que escrever é imaginar. Lembrar que a imaginação tem forma própria. É só deixar acontecer. É só não criar teorias sobre.
Escrever imaginando, não teorizando. Pensar sobre a escrita, sim. Escrever pensando, não.
Lembrar que escrever é imaginar. Lembrar que a imaginação tem forma própria. É só deixar acontecer. É só não criar teorias sobre.
Escrever imaginando, não teorizando. Pensar sobre a escrita, sim. Escrever pensando, não.
20.11.05
Demais
E de repente a percepção que as palavras extrapolaram os sentidos
tornaram-se sentido nenhum
tornaram-se qualquer sentido
tornaram-se o que se torna quando nada
quando tudo quando tanto faz
E de repente a vontade de emudecer
juntar cá dentro as palavras
como quem reune forças
como quem armazena alimento
para hibernar como urso grande e quieto
De repente a vontade de cobrir, de esconder, de criar obstáculos, etapas
para o que estava tão à mostra, tão às claras, tão fácil
De repente a vontade do difícil, do complexo, da economia
do poupar-se
de repente o silêncio por fora pode fazer as palavras mais fortes
aqui dentro
de repente
tornaram-se sentido nenhum
tornaram-se qualquer sentido
tornaram-se o que se torna quando nada
quando tudo quando tanto faz
E de repente a vontade de emudecer
juntar cá dentro as palavras
como quem reune forças
como quem armazena alimento
para hibernar como urso grande e quieto
De repente a vontade de cobrir, de esconder, de criar obstáculos, etapas
para o que estava tão à mostra, tão às claras, tão fácil
De repente a vontade do difícil, do complexo, da economia
do poupar-se
de repente o silêncio por fora pode fazer as palavras mais fortes
aqui dentro
de repente
3.11.05
Desejo de Noll
"Mas isso que você chama de imagético eu chamo também de pele da linguagem. Que tem uma musicalidade. Alguma coisa ligada à fome de beleza [...] acho que é uma certa compensação, pelo menos na minha luta de chegar à poesia. Estou querendo cada vez mais esse hibridismo - prosa e poesia - mas que não seja aquela prosa poética um pouco engalanada, que não me interessa. Mas reconheço no meu texto uma vertigem musical. [...] Acho importante que exista realmente uma questão explícita onde possa ser apresentado realmente um estilo musical - que tenha, digamos, um pouco de religiosidade, de repetição, de ladainha. [...] Claro que esta busca pela beleza não passa pelo ideal clássico, cadavérico, pronto, amplamente posto nos altares; mas uma beleza que seja furiosa, que seja até deselegante, horrorosa, feia. A literatura não é um documento naturalista. A gente tá empapuçado de naturalismo. E a literatura necessita de uma transfiguração estilística. Aquela utopia do Álvaro Ítalo: toque no meu poema, toque no meu poema. Minha utopia hoje é dissolver as fronteiras entre prosa e poesia. Tento captar a realidade através do que a linguagem me indica. [...] Realmente, o que vai me puxar, me arrastar e me movimentar em direção à ação do livro não é uma idéia de conteúdo prévio, mas é aquilo que a linguagem vai abrindo para mim. Como se realmente a linguagem fosse um exercício desejante de ação."
João Gilberto Noll
João Gilberto Noll
Mistérios de Clarice
"Não pinto idéias, pinto o mais inatingível "para sempre". Ou "para nunca", é o mesmo. E antes de mais nada te escrevo dura escrita. Quero como poder pegar com a mão a palavra. A palavra é objeto? E aos instantes eu lhe tiro o sumo de fruta. Tenho que me destituir para alcançar cerne e semente de vida. O instante é semente viva."
* * * *
"A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas - escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio."
* * * *
Clarice Lispector, em Água Viva
2.11.05
Estética
Desvios na narrativa. Um olhar diferente no modo de contar a história. O lado oblíquo das coisas. Quase que ver pelo avesso, ver por dentro, como uma câmera intrusa dentro de um corpo, o personagem, o mundo.
Me parece muito mais interessante do que virar simplesmente o texto de cabeça pra baixo, por virar. Tirar vírgulas, por tirar, buscar um vistuosismo da forma, que é forma virtuosa, mas não é estética.
Estética é quando o autor cria sua própria lógica, seu próprio organismo vivo com a linguagem.
É muito complexo criar uma voz narrativa original. Complexo, não de grau de dificuldade, mas de pensamento sobre a escrita.
Guimarães, Clarice, Hilda, Noll, Cortazar, Calvino, Borges, Kafka, Becket e poucos outros fazem isso.
Me parece muito mais interessante do que virar simplesmente o texto de cabeça pra baixo, por virar. Tirar vírgulas, por tirar, buscar um vistuosismo da forma, que é forma virtuosa, mas não é estética.
Estética é quando o autor cria sua própria lógica, seu próprio organismo vivo com a linguagem.
É muito complexo criar uma voz narrativa original. Complexo, não de grau de dificuldade, mas de pensamento sobre a escrita.
Guimarães, Clarice, Hilda, Noll, Cortazar, Calvino, Borges, Kafka, Becket e poucos outros fazem isso.
Ressurgindo
Demorei tanto para fazer o blog que, quando finalmente faço, um problema técnico fatal não me permite postar mais, de repente. Desde setembro que venho tentando, e nada. Enfim, resolvi fazer este blog novo, colando os post do outro, aos poucos.
O http://www.apequenamorte.blogspot.com/ainda existe, mas desapareceu para mim, nao faz login, nada. Mistérios sem explicações do mundo dos Blogs.
O http://www.apequenamorte.blogspot.com/ainda existe, mas desapareceu para mim, nao faz login, nada. Mistérios sem explicações do mundo dos Blogs.
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