19.5.10

MUNDOS DE EUFRÁSIA II


Quando eu vinha aqui neste blog desabafar as angústias e também as delícias de escrever Mundos de Eufrásia, mergulhava tanto no processo criativo, que era como se o romance fosse ficar para sempre nesse estágio de latência: um livro por vir. Acho que seis anos pode ser tempo suficiente para causar essa impressão em um escritor, de uma quase eternidade. E agora é tão curioso para mim perceber que me afasto do livro, enquanto outras pessoas se aproximam dele. E são essas pessoas, que lêem o livro agora, que o trazem de volta para mim. Então é como se nos reencontrassemos. Sou grata a quem tem me dado esse presente. É como se fosse uma visita de uma pessoa muita querida, com quem convivi intensamente nos últimos anos, e de repente, não nos vemos mais como antes, apenas casualmente.

Agradeço a querida escritora Adriana Lisboa (Autora dos belos livros Rakushisha, O Beijo da Colombina, Sinfonia em branco, entre muitos outros, leituras fundamentaispara quem quer conhecer o que tem de bom e do melhor da nossa literatura contemporânea ) a quem admiro até não poder mais, e continuo depois mesmo não podendo, que escreveu um lindo e generoso post em seu blog Caquis Caídos sobre a sua leitura do meu romance. Deixo o link para quem quiser dar uma olhada. http://caquiscaidos.blogspot.com/2009/08/mundos-de-eufrasia.htm Não só neste post, vale a pena navegar pelo blog inteiro da Adriana, que é ótimo.

E às vezes me surpreendo com o e-mail, a mensagem, como há aqui em alguns comentários, com o retorno de pessoas que leram o livro, pessoas que não conheço, e não me conhecem, que o livro e a literatura nos uniu. Retorno de leituras que me trazem alento e força para continuar nessa rotina equilibrista e inconstante, onde não há muito descanso, nem a sensação de um ponto de chegada, mas de movimento incessante e renovado, onde o horizonte é sempre outro ponto de partida.

É incomparável saber, por esses retornos, que a história de Eufrásia está tocando algumas pessoas que lêem o livro. Mais incomparável ainda é ver que algumas pessoas acham que o livro não é apenas um romance histórico, que não se trata apenas de uma história de amor passada no século XIX, que a vida da Eufrásia é também a vida de prisões familiares, sufocamentos, decisões e escolhas fundamentais, abertura de caminhos, busca de liberdade. A minha maior alegria foi receber esse retorno, porque esse sempre foi o sentimento principal que pairava sobre a escrita. A fricção e o embate entre a vida pública e a privada, as demandas externas sufocando as internas, a necessidade de escapar das prisões sociais e familiares que enredam. A intimidade dentro da experiência maior e menor de nossas vidas. Isso tudo é mais vital, foi ao menos para mim, do que retratar uma época, personalidades históricas, uma história de amor. É maravilhoso, para o autor, quando o leitor toca nessa mesma tecla, que é a essência do livro.

Quando essa nota essencial é ressoada pela leitura, é o escritor que vibra, podem acreditar. Não há nada mais belo do que uma música plenamente ouvida e absorvida em seu sentido mais íntimo.

6.1.10

Novo romance


Interessante o movimento que se cria depois da publicação de um livro. Enquanto o autor, que era íntimo do livro, se afasta pouco a pouco dele, os leitores se aproximam. E são os leitores que, como quem chama uma pessoa para visitar um velho amigo, vão trazendo o livro de volta ao autor.


Agora, neste momento, de seis meses de publicação, de um ano e meio de término da escrita, só agora sinto que um espaço interno está se abrindo para outro livro. Há muito tempo que venho pensando nele, desde o último ano da escrita de Eufrásia. Venho pensando, anotando, deixando de lado, pedindo para ele esperar um pouco que ainda não estava na hora, fui esquentando as idéias no banho maria, fermentando pouco a pouco as imagens e personagens que vinham surgindo, até que, em março de 2009, sentei diante do computador para fazer algum trabalho qualquer, e, quando vi, tinha escrito quatro páginas do novo romance.


Essas quatro páginas me trouxeram o clima, a atmosfera, os personagens, a linguagem, o ritmo e o fluxo do universo da história. Fiquei muito animada e no dia seguinte tentei continuar. Não saiu nada. Mais outro dia: nada. Nessa época, estava mergulhada na revisão de Eufrásia, pensando no livro o tempo todo, no processo, na criação, com saudade dos personagens. Percebi que precisava ir dissipando aos poucos a intensa convivência com o livro e tudo que ele representou para mim para então pensar claramente no outro.

E agora, que ultrapassei as quatro páginas, vivo um momento de expectativa total. Aquele momento da criação em que você ainda não escreveu o suficiente para saber qual é "a cara" do livro, qual formato ele vai ter, e cada passo dado, cada nova página, é uma incrível descoberta.

E essa emoção da página em branco: como vou preenchê-la? Vou conseguir preenchê-la?


Bem, é uma delícia, e uma angústia também.


Mas, confesso, estava com muitas saudades de escrever. De entrar no universo de uma história. De ser absorvida por ela. De "ver" os personagens, de ser assaltada por eles nos momentos mais inesperados, fazendo café, andando na rua, na fila do banco.


Hoje fui dar uma volta na praia com o único e exclusivo objetivo de pensar na história e nos personagens. Quando vi, estava anotando coisinhas no caderno enquanto andava, gesticulando e falando alguma coisa pensando nos personagens, enfim, doida de pedra.



Mas como é bom enlouquecer um pouco.



17.8.09

MUNDOS DE EUFRÁSIA I


Venho hoje redimir o fato de não ter feito nenhum post ainda sobre o lançamento do meu primeiro romance, Mundos de Eufrásia. Mas, antes de tudo, gostaria de falar um pouco dessa incrível realidade que é para mim ver e tocar o livro pronto. Quem leu alguns post anteriores desse blog, sabe do que estou falando. A jornada quase eterna da escrita, da pesquisa, da vida de fora e de dentro do livro. Mesmo depois que entreguei o romance à editora, eu continuei totalmente ligada a ele, nas reescritas, nas revisões, nas conversas, na saudade. E, um dia, fui à editora Record, para uma reunião, sabendo que Ele já tinha saído da gráfica, estava fora do forno, fumegante e a minha espera. Eu fui ao encontro Dele, num dos percursos mais estranhos de minha vida. Eu não sabia o que pensar, nem o que sentir. Já havia chorado um pouco em casa, antes de sair, de pura alegria e alívio. Era estranho, sobretudo, a sensação de que eu precisava ir até Ele, fazer uma trajetória tão externa e cotidiana (trânsito, táxi, dinheiro, hora), quando, na verdade, por seis anos, o caminho foi tão inverso. Eu não precisava ir a lugar nenhum para encontrar com Ele. Ele estava em mim e saía de mim, estávamos grudados um no outro.

Então, quando cheguei à editora e o vi, (me deparei não apenas com um exemplar, mas com uma pilha de vários exemplares), tive um sentimento que até hoje não entendo direito: um enorme vazio misturado à uma brutal sensação de realidade. Talvez aquele dia tenha sido um dos mais concretos de minha vida. Eu não conseguia parar de tocá-lo. Como se fosse necessário confirmar a sua presença, ou confirmar que essa presença agora não mais me pertencia, estava absolutamente separada da minha pessoa. Acredito que nem todo processo criativo é assim, não foi assim com o meu livro de contos. Sei lá, quanto mais um filho nos exige, mais nos damos a ele.
Vai ver é isso. Esse dia, em que o vi, senti a primeira grande ruptura. O filho já estava crescido, alimentado, saudável, devidamente vestido e arrumado para partir para a vida. E foi.

Voltei com um exemplar para a casa, começando enfim a sentir a alegria devida: de ver o livro publicado, de apreciar a capa, que ficou linda, a diagramação caprichada, e tudo o mais. E quanto mais eu me aproximava de casa, mais o livro ia deixando os bastidores da criação, com as suas circunstâncias e contextos, e se tornando um livro, desses que a gente vê nas livrarias.

Naquela noite, escrevi na minha agenda: hoje foi um dia concreto.


28.3.09

Sobrevida II

Às vezes
o dia não rende
nada se resolve
nada acontece
nada brilha
todas as coisas ganham o formato de fila no banco
compras no mercado, números a somar e subtrair
E de repente
quando tudo parece perdido
quando você já está acreditando
que dessa semente não sai fruta
que a poeira nunca mais deixaria os móveis
que o piloto estava para sempre no modo automático
Algo se rompe
algo se quebra
algo arrebenta
algo explode
de uma forma que
por mais que doa um pouco ou muito
você logo reconhece
que é necessário
romper
quebrar
arrebentar
explodir
para isso:
uma frase ou duas
apenas isso:
uma frase
que renda
que resolva
que aconteça
que brilhe mais
do que o dia


*
*
*

Sobrevida I

Às vezes
Tem poemas que esbarram com a gente
como numa esquina...
quando estamos indo para um caminho
o poema para outro
e ambos no mesmo sentido...



O dia inteiro


O dia inteiro perseguindo uma idéia :
vagalumes tontos contra a teia
das especulações, e nenhuma
floração, nem ao menos
um botão incipiente
no recorte da janela
empresta foco ao hipotético jardim.
Longe daqui, de mim
(mais para dentro)
desço no poço de silêncio
que em gerúndio vara madrugadas
ora branco (como lábios de espanto)
ora negro (como cego, como
medo atado à garganta)
segura apenas por um fio, frágil e físsil,
ínfimo ao infinito,
mínimo onde o superlativo esbarra
e é tudo de que disponho
até dispensar o sonho de um chão provável
até que meus pés se cravem
no rosto desta última flor.


Claudia Roquette-Pinto


8.3.09



e a saudade: esse pequeno sol no peito.


O RETORNO

Devo desculpas aos meus 3 queridos e hipotéticos leitores deste blog, se esses já não desistiram, por este tempo todo sem postagem. As causas foram duas: a primeira, muito trabalho e pouco tempo, apesar da vontade. A segunda, mais cruel: quando enfim ia postar, o blogger simplesmente não me reconhecia. Não consegui entrar no meu próprio blog por alguns meses. Depois de alguns e-mails de socorro, consegui resolver o problema e aqui estou.

Uma das coisas que queria ter escrito aqui, e escrevo agora, é sobre a incrível diferença atmosférica que sinto após ter terminado o romance. Sei que quando estamos envolvidos em um projeto, seja ele qual for, ele se torna na maioria das vezes a referência de nossos dias. Tudo flui e conflui por ele e para ele e assim foi com o romance. Mesmo quando eu não estava escrevendo, eu estava. Quer dizer, a relação com o livro continuava, apesar da distância. Antes, quando escrevia contos, eu entrava e saía das atmosferas de cada um talvez sem perceber intensamente o quanto eu era absorvida por elas. Com o romance sobre a Eufrásia Teixeira Leite, houve um momento crucial na escrita, em que percebi que precisava me aproximar mais dos sentimentos da personagem. O romance não é em primeira pessoa, mas eu precisava de uma voz íntima. Eu ou o livro, não sei, talvez, nós dois. O que sei é que só agora percebo como estava imersa no universo do livro, tantas vezes sombrio e melancólico, tão diferente da minha natureza. Estranho que eu parecia eu, como sempre fui, mas de algum modo a atmosfera de algumas passagens do livro, os sentimentos que essas passagens exigiam, as reflexões que despertavam, as feridas que eram necessárias sentir para escrever sobre elas, a tensão entre as relações dos personagens, as conseqüências de atravessar por essas relações e personalidades para escrever sobre elas, tudo isso e mais, foi me contaminando, me trazendo um sentimento introspectivo e fechado ao resto do mundo. Há claro aqui algum exagero, típico de quem tem júpiter na casa 1 (voltei a estudar astrologia, fazer o quê, conseqüências desses longos seis anos provavelmente). Mas o que posso dizer, além disso, se agora parece que uma cortina se abriu para uma janela ensolarada, se agora enxergo paisagens que antes deslumbravam diariamente diante dos meus olhos - completamente ignoradas? Não sei precisar exatamente o que houve, mas agora parece que há mais luz e leveza em tudo. Uma amiga espírita me disse que, como os personagens do livro existiram, foram pessoas como nós, os seus espíritos me assombraram (inspiraram?) esses anos todos, enquanto eu escrevia o livro. Ui. Incrível como eu, tão chegada a esses assuntos, nunca considerei essa possibilidade. Se foi assim, como diz o querido poeta, tudo vale a pena se a alma não é pequena. E espero que não tenha sido, que tenha sido-seja grande, alta, iluminada. Espero sinceramente que o livro tenha alcançado alguma veracidade e profundeza da existência de Eufrásia e dos outros, mas, principalmente ela, a incrível mulher que ela foi.


Mas queria dizer que, neste livro, o movimento da criação foi oposto ao do livro anterior, A pequena morte e outras naturezas, de contos. Com os contos, o mundo exterior me inspirava, eu observava as pessoas, as ouvia, tirava delas material para as histórias. Imagens, situações, música, paisagens, gente, aulas, textos, poesia, prosa, tudo, tudo me despertava, me inspirava, me imbuía. Havia um fluxo de troca muito interessante e bom, eu absorvia o exterior, tornava-o meu, e o devolvia através da escrita, de volta ao mundo. Neste romance, não. Foi tudo diferente. O movimento foi muito mais de dentro para fora, de dentro para dentro. O mundo não me inspirava. Não como antes. Houve, sim, músicas, filmes, livros, muitos livros, imagens da época, mas sempre de um modo muito introspectivo, dentro de um universo muito próprio. Eu também falava sobre o livro e trocava idéias com as pessoas, mas ainda assim todo o ato criativo era obscuro, moído (Não estou achando a palavra certa. Não quero dizer que eu me fechava de propósito. Na verdade, fazia grande esforço para me abrir). Talvez isso tenha acontecido porque a história se passava no século XIX, e eu precisei me transportar, o que acarretou em certo fechamento para este nosso mundo. O que me inspirava era apenas o que trazia o século XIX para mim. Não sei se isso é bom ou ruim, certo ou errado, mas acho curioso como a atmosfera e o universo da história determinaram o processo criativo, e não eu.



26.10.08

Domingo de Clarice, com Clarice, por Clarice

"O processo de escrever é difícil?
Mas é como chamar de difícil
o modo extremamente caprichoso
e natural como uma flor é feita".



Clarice Lispector, Legião estrangeira.

13.10.08

Lendo Caio, sobrevida.



"Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas.

(...)

Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente.

(...)

Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?"

Trechos de Para uma avenca partindo (O OVO APUNHALADO)


" Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome." (Trechos de Pequenas epifanias)



"e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era." (Além do Ponto, em Morangos Mofados)


"Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos." (Trecho de Dois ou três almoços, uns silêncios)



5.10.08

Por uma alegria genuína

Sempre que volto às aulas de criação literária na Estação das Letras, tenho uma espécie de reencontro feliz com a literatura. Especialmente quando as turmas são compostas de pessoas que realmente gostam e se interessam pela escrita. E apenas ela. E só ela.


É de uma alegria quase infantil, o coração descoberto, ver, ouvir e falar com essas pessoas, de profissões tão diversas. Jornalistas, advogados, músicos, engenheiros, professores, psiquiatras, só para citar algumas, e também universitários, estudantes do ensino médio, gente de todas as idades e todos os tipos, que não querem necessariamente publicar um livro, não querem seguir carreira literária, não querem ganhar prêmios, ver os seus nomes impressos e nem tudo o mais que envolve os arredores literários. O que eles querem, então, afinal?


Eles querem escrever.


Sim, apenas isso. E olhe, não é pouco. Há muitos caminhos a serem descobertos a partir desse desejo. Vejo a alegria genuína neles ao descobrirem. Sinto a alegria genuína de estimular e acompanhar essas descobertas. Quando encontro pessoas assim, turmas assim, é uma festa. Uma verdadeira celebração da escrita. Sei que nem todas as turmas são desse jeito. Realmente, é deprimente quando vemos pessoas mais interessadas em afirmar o ego por meio da escrita do que em escrever, mais concentradas em atiçar vaidades e derrubar conquistas alheias do que mergulhar no processo da escrita, que é único, pessoal, intenso e extremamente vulnerável.


Em 2003, fez dez anos que escrevi o conto que marcou, para mim, o início de um caminho mais pessoal na escrita. Escrevo desde pequena, mas a partir deste conto, A hora do galo, comecei a ter mais consciência da linguagem, da textura da escrita, do ritmo, do que é buscar uma voz singular. Em 1996, este conto foi premiado em um concurso da RioArte. De 1993 a 1996, escrevi outros contos, tentando encontrar a minha voz, tentando escrever e apenas isso. Em 1996, questões pessoais, a falta de tempo, a incerteza em assumir a escrita de um livro, a doação do tempo necessário da vida para isso (não há ilusões: se você não é rico ou algo parecido, o tempo para escrever um livro não existe, ele precisa ser cavado no cotidiano. Ele precisa ser retirado de algum lugar), e tantas outras dúvidas me afastaram da escrita. Estava me formando em Letras e em Teatro, e dois futuros incertos me pesavam. Um amigo então me falou do concurso, e nem pensei em participar. Me inscrevi no último dia, com o pensamento místico de que o resultado daquele concurso seria um sinal para mim. Apenas isso, um sinal. Eu não estava pensando em "vitória", em nada disso. Naquele momento de escolhas e definições, eu apenas precisava desesperadamente saber se o meu amor pela literatura era de alguma forma correspondido. Se não era platônico, com tinham sido outros amores. Como a música, como até o teatro parecia ser. Então, quando saiu o resultado e o meu conto foi premiado, foi muito mais do que qualquer vitória, mais do que ter o sentimento de que ali havia um caminho, foi como ouvir, num sussurro, "eu também". Podia ser um amor bandido, esquisito, incerto, repleto de inseguranças e expectativas, mas ele existia. E, às vezes, só saber que o amor existe já basta.


Claro que se o conto não tivesse sido premiado, eu continuaria a escrever, e cedo ou tarde viriam outros sinais para as minhas dúvidas e angústias. Mas era como se eu tivesse forçado o destino... Se eu contar até dez e uma mulher grávida virar a esquina... se hoje fizer sol... se o telefone tocar daqui a pouco... se... se... por acaso ou por sorte, aconteceu.

De 1996 a 1998, escrevi e reescrevi os contos pensando em um possível livro. Em 2000, o livro foi publicado. E de lá até hoje, depois de muitas lágrimas, suor e cerveja, a escrita está cada vez mais frequente em meus dias, ganhando pouco a pouco mais espaço e tempo, mais tranquilidade e prazer. E nesse tempo todo, desde que escrevi sem a menor expectativa de entrar no "mercado", anos atrás, até agora que escrevo com a consciência dele, não há a menor dúvida que é a escrita que continua movendo tudo. É a escrita. E só ela. Por isso, a alegria genuína ao encontrar pessoas que escrevem porque escrevem.

A ironia de tudo isso é que, com ilustres exceções, encontro essa alegria genuína com a literatura mais em pessoas que não tem pretensões literárias, não se dizem escritores e não publicam livros. Como eu disse, pessoas das mais diversas profissões. Não vejo essa alegria quando vou a um congresso, não vejo em escritores falando de seus livros e seus processos de criação. Novamente, com ilustres exceções, não vejo nem mesmo um rastro de fagulha. Vejo um bocejo em tudo. Ou um savoir-faire forçado em relação à escrita. É certo que cada um tem seu jeito de lidar com cada coisa. Mas sinto falta de partilhar a alegria e mesmo as angústias de um amor em comum.

Ou talvez hoje eu esteja muito sentimental.

De qualquer forma, Cortázar dizia o seguinte, "Com toda a honestidade, declaro que nas poucas vezes em que precisei ficar em tais sanatórios de literatura voltei para a rua com um enorme desejo de tomar vinho num bar olhando as garotas passando nos ônibus. E a cada dia me parece mais lógico e mais necessário ir à literatura - seja na condição de autor, seja na de leitor - como se vai aos encontros mais essenciais da existência, como se vai ao amor e por vezes à morte, sabendo que fazem parte indissolúvel de um todo e que um livro começa e termina muito antes e muito depois da sua primeira e última palavra".

E como é bom isso.



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25.9.08

Para iluminar o dia

OUTRA RECEITA (Armando Freitas Filho )


Da linguagem, o que flutua
ao contrário do feijão à João
é o que se quer aqui, escrevível:
o conserto das palavras, não só
o resultado final da oficina
mas o ruído discreto e breve
o rumor de rosca, a relojoaria
do dia e do sentido se fazendo
sem hora para acabar, interminável
sem acalmar a mesa, sem o clic
final, onde se admite tudo –
o eco, o feno, a palha, o leve –
até para efeito de contraste
para fazer do peso – pesadelo.
E em vez de pedra quebra-dente
para manter a atenção de quem lê
como isca, como risco, a ameaça
do que está no ar, iminente.

27.8.08

Atrás da estante

Peço desculpas aos meus três hipotéticos e queridos leitores pela ausência das postagens nestes últimos meses. Imaginem que depois de pôr o verdadeiro ponto final no romance, entrei em um estado de exaustão mental e cansaço físico. Especialmente nas mãos, os dedos pediram férias do teclado.

E também há outro motivo, talvez o mais forte: nem sempre há algo a dizer.

O silêncio, então...

Mas não podia deixar de postar aqui a respeito da minha Coluna no Jornal de literatura Rascunho, Atrás da Estante, que fez a sua estréia neste mês de agosto.

A oportunidade feliz de escrever esta coluna causou um rebuliço aqui dentro no momento em que eu não estava operando, mas em pausa.

Há muito tempo, desde que eu comecei a dar aulas, tanto de literatura brasileira como de criação literária, que muitas questões referentes à leitura e à escrita, à vida literária e à crítica me provocam e me instigam. Geralmente, o percurso de volta para casa é preenchido mais com pensamentos do que com a consciência de atravessar a rua, pegar o ônibus, pagar a passagem, depois descer, abrir a porta, entrar. A discussão continuava aqui após a aula, se desdobrando em outros assuntos, travando relações com os textos, as idéias, as experiências dos alunos e com a minha própria experiência.

Então, os dedos começaram a coçar, sem saber para onde ir a princípio. Este blog é o resultado desta coçeira. Um espaço para falar sobre literatura, abordando livremente os seus infinitos aspectos. Uma crônica postada aqui há bastante tempo é outro resultado, O labirinto da estante. Outros posts também. Eu sabia que queria escrever ensaios, mas não ensaios muito acadêmicos, e também não sabia direito ainda o modo em que faria isso. Era só uma vontade, que ficou me rondando por um tempo, à espreita.

Então, lembrei de um trecho da minha dissertação, em que discuti uma questão conceitual, transformando o "escritor tradicional" (termo de Julio Cortázar) e o filósofo Nietzsche em personagens, inserindo-os em determinada situação exemplar para a discussão. Às vezes fazemos sem querer coisas que são sinais e sementes para um caminho posterior. E assim nasceu a vontade de discutir questões literárias por meio de um ensaio-ficcional. E depois de alguns anos roendo e remoendo a vontade, surgiu a oportunidade no Jornal Rascunho, que sempre li e admirei, graças ao seu editor, Rogério Pereira.

A primeira coluna se chama Tiro nas letras, e é sobre o ensino de literatura nas escolas... Tortura que vivi na própria pele, como professora... Para mim, este é um assunto grave e urgente, comentado aqui e ali, mas ainda não discutido o suficiente para se tornar a grande questão que deveria ser.

Aqui vai um trecho da Coluna:


Tiro nas letras


Quando Raul Pompéia suicidou-se com um tiro, aos trinta e dois anos, em uma triste noite de natal, deixando uma controvertida obra composta de novelas, romances e crônicas, não podia prever que um século depois, um rapaz de dezessete anos tiraria um resumo do seu livro Ateneu da mochila, se sentaria na cadeira de uma escola com o jeans surrado de todos os dias, balançaria nervosamente os tênis durante toda a aula, enquanto respondia, valendo um ponto cada, questões desse tipo: a) O escritor naturalista Raul Pompéia morreu de tuberculose. b) O escritor romântico Raul Pompéia era homossexual. c) Raul Pompéia era natural do Rio de Janeiro. d) O escritor Raul Pompéia suicidou-se.

Do mesmo modo, Castro Alves quando escreveu Navio negreiro, aos vinte e um anos, tomado pela densidade poética e pela forte questão humana que envolvia a defesa da emancipação dos escravos, não poderia imaginar que cem anos depois trechos do seu poema seriam impressos na prova de uma matéria chamada Literatura Brasileira, e, muito menos, poderia supor, em seus maiores delírios, que as perguntas feitas a partir de sua obra seriam: 1) O autor deste poema pertence a qual fase do romantismo?, 2) Quais as características do movimento romântico expressas em Castro Alves?


Muito menos Augusto dos Anjos, que falava com a morte tão de perto em seus poemas a ponto de ela ter chegado cedo a sua vida na forma de uma pneumonia fatal, aos trinta anos, não poderia conceber que, dez décadas depois, uma professora em início de carreira, apaixonada desde sempre por seus versos de angústia e espanto, entrou em depressão profunda após uma aula de literatura, na qual por pressão do programa curricular, da carga horária apertada e da data da prova, teve que resumir a obra de seu poeta preferido em duas frases: Os versos mórbidos de Augusto dos Anjos ofenderam a métrica parnasiana e os bons costumes da lírica, ela ditou, trêmula, do livro didático para os alunos. O pessimismo do poeta aliado à ciência acusava a degradação humana por meio de analogias com processos químicos e biológicos, disse, lúgubre. De-gra, o quê, professora?, um aluno perguntou, enquanto copiava. De-gra-da-ção hu-ma-na, repetiu, perplexa, e, naquela noite, queimou em silêncio profundo as cinqüenta cópias do poema O Deus-verme, que havia escolhido e impresso para ler e discutir na aula.



Para ler o restante, acesse a sessão Coluna em www.rascunho.com.br.

23.6.08

Sob o sol

Tão dentro e perto

Um rastro de mundo pousa nas pontas dos dedos

Tão fugidio e certo

escrever marcando territórios internos

onde ficamos

e ao mesmo tempo

nos despedimos deles


passos fundos sob o sol



(Um impulso poético que às vezes me dói)

15.6.08

Tecido Penumbroso

Como posso sofrer porque as coisas pararam? Elas andaram tão estouvadas! Por que não deixá-las dormir agora um pouco? Tudo se aquietou, é noite, o mundo vive pra dentro, cegando-se ao sol do sonho. Preciso um pouco desse conteúdo inóspito, ermo como um quase-nada. Não, não é morte, é uma espécie de lacuna essencial, sem a aparência eterna do mármore, ou, por outro lado, sem as inscrições carcomidas. Pode-se respirar também na contra-vida. Depois então a gente volta para o ritmo; aí já não nos reconheceremos ao espelho explícito, tamanha a qualidade desse tecido penumbroso que provamos.


João Gilberto Noll,
inspiradíssimo em Mínimos, múltiplos, comuns.

9.6.08

Escrever para Tchékhov

O mestre do conto moderno, um dos meus escritores preferidos, (a quem sempre recorro quando preciso de um alento ou conselho, ou quando simplesmente preciso de descanso, como estar entre bons amigos) escreveu inúmeras cartas nas quais refletia, e muito, sobre o processo criativo. Aqui vão algumas reflexões do mestre:

"Não retoques, não buriles demais, sê estouvado e audacioso. A brevidade é irmã do talento".

"Na esfera da psique também são os detalhes que contam. Deus nos livre dos lugares comuns! O melhor de tudo é evitar descrever o estado de espírito das personagens; deve-se fazer com que ele seja apreendido a partir de suas ações...".

"Quanto mais a situação é sentimental, tanto mais frieza é necessária para escrever, e o resultado será mais sentimental. Não convém açucarar".

"Quando escrevo, eu confio inteiramente no leitor, supondo que ele mesmo acrescentará os elementos subjetivos que faltam ao conto (sobre a tendência de escrever e julgar os personagens, 'escrever não é passar sermão', diz Tchékhov)".


"Não sejamos charlatões e vamos deixar claro que nesse mundo ninguém pesca nada. Somemte os imbecis e os charlatões é que sabem e compreendem tudo".

"O bom romancista deve passar ao largo de tudo o que tenha significado transitório".

"Notei também outra lei da naturezas: quanto mais alegre eu vivo, mais sombrio saem meus contos".

20.5.08

O topo da montanha mais alta merece o grito mais contido

Estou há um tempo para dar este grito aqui, mas antes precisei gritar em outros lugares, em casa, bares, no topo de montanhas e na beira de precipícios. É que, afinal e finalmente, após seis longos anos de imersões e interrupções, pesquisas, escritas e reescritas, coloquei o ponto final definitivo no meu romance.

Neste final de processo, algumas emoções, talvez, inevitáveis, vieram à tona frequentemente. A primeira era a ânsia arquejante de chegar ao verdadeiro ponto final, página a página, frase a frase, misto de euforia e tristeza. Quando cheguei na última página, e percebi que era realmente a derradeira, lembrei do processo desses longos anos, e entendi, já havia entendido há tempo, mas entendi de uma forma diferente, que a dificuldade maior deste livro não foi escrevê-lo, mas não escrevê-lo.

Escrever foi um aprendizado constante, sobreviver aos dias inférteis, às páginas inúteis (mas talvez nunca sejam realmente), prazer de descobrir caminhos narrativos desconhecidos para mim, de sentir nos dedos os personagens crescendo e aparecendo mais do que eu havia planejado, de ver a história tomando forma própria, voando acima das pesquisas feitas, estabelecendo atmosferas e texturas que me exigiram um envolvimento íntimo, uma carga pessoal em uma história passada em outro século, emoções e sentimentos que a princípio nada tinham a ver comigo. Mas, ora, como a convivência nos revela. Desde o início, talvez eu desconfiasse, confesso, que havia ali, naquela família e naquelas relações, sentimentos que também me habitavam, de certo modo. E agora, após o ponto final, seis anos de convívio com essas pessoas, com esse universo, descubro ofegante que escrever também pode ser, ou só é, essa amalgáma de ficção e experiência, confluências e imaginação, confissão disfarçada e entendimentos enfim realizados. Independente da história que se conta, da aparente relação (ou não) com o nosso mundo real, a ficção é mais rica do que imagina as nossas referências pessoais, é mais exigente do que se pensa, não se contenta com afinidades, identificações, ou desejos criativos formais e racionalizados, ela se alimenta do que nem podemos desconfiar. Ainda bem, ela arruma a sua forma própria de acontecer. É ela que penetra em nossa sensibilidade, em nossa memória, em nossos afetos, e não ao contrário. Que bom que compreendi isso a tempo, e não tarde demais.



Não escrever foi a parte mais difícil, porque a realidade talvez nunca tenha me chamado tanto, me exigido tanto como nestes seis anos. Chamo de "realidade" neste momento aquilo que nos acontece, que acontece às pessoas ao nosso redor, e que nos exige presença e atenção. Tentei, como pude, conciliar as forças e equilibrar todas as necessidades. Mas é justamente quando a gente acha que encontou algum equilíbrio sobre a terra que ela estremece. É justamente quando os pés tocam o chão que escorregamos. Às vezes me sentava diante do PC com a sensação de que escrevia em meio ao caos. O PC, sólido, enquanto o mundo desabava ao redor. Junto a isso, toda a rotina de trabalho fora da escrita, que também exige atenção de outra ordem, a de sobreviver mês a mês. Enquanto escrevia este livro, a vida nunca foi tão real, a realidade, tão bruta, e a ficção, para quem eu voltava sempre devedora e atrasada, tão necessária.

29.3.08

Um delírio por Moira

Parecia que estava tudo terminado. Do alto do prédio as avenidas. Para cada peça de roupa que tirava, nada mais a vestia. Sentia-se sublime. Submersa.
Sub.
Já tinha lutado todas as guerras, pisado na terra úmida, atravessado o pó e as pedras. Chegara, então, no limite.
Difícil.
Já amou tanta gente.
Todos na família diziam isso : que ela amava demais.
Era muito dada.
Difícil para ela, não ser. Os pés tremiam, gelados. Pés de tantos caminhos, esquecidos no gelo. As mãos também eram abandonadas ao inverno. Mãos que tocavam quase sem textura, frias sobre a superfície.
Áspera lisa macia. Grossa escorregadia dura. Agoniada, quis congelar de vez. Não só as extremidades : tudo. O aluguel vai vencer, a luz vai vencer, o telefone vai. Quis congelar. O papel branco e números. Logo para ela que amava os livros. Os seus pés não esperavam pedras tão agudas. A carteira estava vazia e o banco lhe mandara uma cartinha. Mais juros de não sei o quê. Cheque especial. O centro do seu corpo ardeu da luz mais intensa. Teve um pensamento que – Ah, como tudo aqui é embrutecido ! – foi o que pensou. Um dinheiro que não era seu fora depositado em sua conta. É como areia e vento o diabo que não se vê. Como tudo aqui é –
Pressentiu – uma aridez.
Que difícil.
De tanto calor e frio, ela não pôde mais. Descobriu-se água, descobriu-se vento. Lançou ondas, soprou ventanias. Fez-se mar.
Bebeu do copo uma água sem gosto. Se não arranjasse logo outro emprego, morreria - sim sim morreria. Não tinha cara de pedir nada a ninguém. Era muito dada. No amor. Todo mundo dizia. Mas na fome – o que podia dar ? Era forte, mas se ficasse faminta, só ia querer saber de comer. Não podia sozinha com o seu corpo impedir toda a ressaca.
Só não estava mais fraca por causa dos exercícios. Os nervos, os músculos. Quando parava de mão, via os pés lá em cima. O sangue descendo para mente era bom de sentir. A cabeça perto da terra dava um medo de ver.
Ah, andar, coisa urgente ! correr então ! Ela sabia : bater o currículo – entregar o currículo – esperar então !
Os dedos, já azuis de inverno, tocavam o umbigo. Desde menina ela gostava de mexer no buraquinho macio. Afundava o indicador nele. Gostava de afundar. O umbigo - de fogo e brasa – envolvia – um por um - os dedos. Ela era arquiteta. Sonhava com estruturas. O seu apartamento era frio. O seu cobertor, velho. Tinha muito o que falar para aquela gente do escritório. Reclamavam que ela não sabia datilografar direito, nem fazer um bom cafezinho. Hum. Mentira. Em casa o seu café era bom. O cheiro forte, a cor escura. A palavra limite na boca, a palavra sua. Na gaveta, o diploma. No escritório, o susto :– Sou arquiteta ! , isso era o que tinha para falar para aquela gente. Não falou. Viu que as unhas compridas de tantos anos quebravam pelo caminho, formando um círculo em si mesmas. Ela olhava. Ela ria. Olhava e ria. Juntava os pedaços caídos ao seu redor, formava montes. Viu-se montanha. Começou a chorar.
A pele bebeu as lágrimas. O sal ficou no corpo. Prédios altos sobre as avenidas. Prédios baixos também. A régua e o lápis distantes. Casas próprias para as famílias. Nada mais tinha a dizer. Nascera para desenhar. O risco traçou no papel o seu caminho. Da sua mão deveria vir o abrigo. Mas disseram : recessão, e ela não pôde mais. E, depois, em nenhum outro lugar pôde. Falou em tantas entrevistas, e por tanto tempo. Os olhos ardendo sem ver horizonte. A sensação pequena – não estava pedindo – mas o olhar de todos como se estivesse. O olhar de todos e ela pequena. O sal queimando sob o sol. O sal. Com tanto não ela não pôde. Só pôde isso de bater em botões e servir café. Quis morrer de novo. Mas tinha as prestações e os planos e os seguros para pagar. Tinha também os livros a família um amor e tanta coisa. É que, ás vezes, o mundo devasta tudo como fogo. Mas ela não queria morrer de fogo, preferia morrer de mar.
Olhou a pequena chama em seu ventre. Se deixasse, cresceria no umbigo até incêndio. Tentara também empregos públicos. Agora, tentava diminuir a chama como um isqueiro. Também já tinha lido todos os manuais, passado em todos os concursos. Falaram que a chamariam, um dia, quando houvesse uma vaga. Ela continua esperando. Ainda acredita que deve haver um lugar para a sua urgência. Mas, até lá, se levanta e não sabe quando, para quê, para onde, como. O quê fazer ? Como ?
Difícil.
Depois de secar as lágrimas com os cabelos, cismou de secá-los no fogo. Foi arrancando os fios, enquanto sussurrava um canto. Que coisa. Os cabelos na pequena chama do umbigo. Talvez não consiga pagar o som novo. E a televisão grande. Talvez não. Da janela ela media a distância. 12 x com alguns juros. Talvez não houvesse mais nada que pudesse ter. Teria então o silêncio. Poderia ser o silêncio de dormir, ou o outro. Que coisa. Nem sempre era assim. Tão triste. Tinha algum amor que ela encontrava. E as amigas que a chamavam para se divertir - e beber.
Ah ! ela ia - passava o batom – e ia ! – Gostava de ver gente – de ouvir – de dançar- de viver !
Lá pelas tantas – cantava.
Mas a sua voz parecia vir de fora.
Por dentro, era incêndio.
Queimou parte dos cabelos, queimou os dedos também. De azuis tornaram-se vermelhos. Muito mais bonitos, os dedos vermelhos. Descobriu-se vaidosa. Penteou-se. Sentiu a língua. O cheiro. Pensou no amor que tinha. E estava longe. Queria agora as mãos dele nos seus cabelos. As mãos dele. Em outros lugares também. Arrancou alguns fios. Ai ! como estavam vivos !
Uma vez, amou um homem e o seu corpo. Ele lhe tirava suspiros - ela gostava. O que ela falava - ele entendia. Era só olhar - ele a alcançava. Mas então. Ela não entendeu. Arrancou mais fios. Como poderia entender ? E arrancou mais. Distâncias acontecem. Ela o amava. Ele também. O que foi acontecer ? Uma distância.
Difícil.
Arrancou mais fios. E mais. Fez um ninho. Colocou-o ao redor da chama. Puxou água dos seios para apagar o fogo, puxou vento dentre as pernas para espalhar a brasa. O vento espalhou. A água apagou. Deus, dos homens que a amaram. Alguns souberam como. Outros não. Mas esse. Meu Deus. Ela não entendeu. A luz tornou-se cinza. E tão de repente. Estava tudo bem. Como nunca esteve entre os homens. E então. Houve a transferência. Mas por que para tão longe ? Não falaram o porquê. Falaram outra coisa : que era urgente. Que precisavam dele - lá. Precisam de mim, ele disse. Com urgência. E olhou para ela apaixonado alegre e triste. Mas eu não vou, decidiu. Não quero ir. Vou falar que fico. Vou falar. Mas quando foi dizer. Não disse. Era muito dinheiro. Não teve como dizer - não. Disse sim. Não teve como.
Que coisa. A luz ficou cinza. De restos. Ela tentava conservá-la. Mesmo cinza assim. Esfregava-a no peito. Guardava-a no ventre, para lhe dar forças. Que sobrevivesse, por favor ! Pressionava o corpo para sentir nas mãos o furor e a alegria. Pressionava. O nome dele na boca, as cartas dele pela cama, as roupas dele como travesseiro lençol como pijama para ela fechar os olhos e dormir embrulhada por baixo por cima por–
Que difícil.
Tinham tanto o que falar - um para o outro.
Ouvir o som - não as palavras.
Mas, ás vezes, tudo fugia. Como poeira e pó há pouca luz na sombra. Ah, ela abraçava forte os livros porque eles lhe eram caros. Porque eles lhe diziam coisas que ela não ouvia mais ninguém dizer, ela abraçava os livros.
Os seus desejos não contavam com formas tão brutas. Como tudo aqui é. O aluguel vai vencer, a luz vai vencer, o telefone vai. Também já tinha tentado vender cosméticos. Depois, calcinhas. Já estava cansada de tão em pé nas filas. Toda a luz tornara-se pó como coisa moída. Só lhe restara a alma limpa a solidez que herdara da família. Raiz que finca bem e fundo ninguém tira. Embora tenha vezes em que o vento forte parece, de tão forte, uma força impossível. Assusta. Mas até o fim a raiz resiste inteira. E ela bem sabe que dentro da poeira e seiva permanece a vida. Então, tira da língua a palavra fogo. E antes que soltasse faíscas ela diz : água. Junta o líquido à substância. Com os dedos longos amassa. Um dia, terá que arrumar a casa. Quando. Junta mais água. Transforma o pó em massa. Estica os dedos – as unhas quebradas. Mais pó. Mais água. Amassa.
Um dia, mudará as cortinas os tapetes. Para o seu amor, pintará os lábios as paredes. Talvez esteja amando demais. Nas mãos, a massa brilha. No corpo dela - a estrutura. Ah, e só pode mesmo ser demais ! Com esse amor lhes espera uma filha. Ela sabe. Mas quando. Bate em seu ventre para adquirir consistência. Bate mais. Só quer aquilo que ama. E bate. Só o que acredita. Para. O resto não. A massa brilha. Com o resto não tem paciência. Quer que brilhe mais. Nunca teve. Que brilhe tanto. Quer também que exploda. Massa luz e tudo. No céu. Mira bem para jogar alto. Pois. Quando ele voltar. Ela olha para cima. Mede a distância. Pois. Quando o desenho for de novo o seu risco o seu passo. Aí, sim. Ela olha o céu. Respira. Olha de novo. Levanta as mãos. Mira. Ah, mas está cansada de estrelas –

prefere que a luz exploda em suas próprias mãos.

___________Que coisa ! Quis subir as montanhas, atirar-se lá de cima. Correr correr correr ! Sumir. Mas os pés não obedeceram – ficaram. Da janela, a cidade as pessoas. As pessoas de longe são gente esquisita. Que tanto andam. Parecem sempre as mesmas andando e indo. Lá embaixo, ela andava assim também. Mas que estranho. De longe não viu sentido. Achou melhor não ir. Pois, era preciso ficar. E receber o vento na cara. Sim, porque a verdade começava a sair do esconderijo.

Já molhara as plantas – já lavara a louça – já fizera as compras – já chorara um pouco –
Já fora ao cinema – terminara o romance – arrumara a estante – já estendera a roupa –

De vez em quando, folheava uma revista cheia de poses e truques. E arrancava as folhas com raiva e alegria.

Às vezes, também sentia desfolhar-se.

Em suas mãos, o cheque, o extrato vazio. Na televisão, as palavras estudadas parecem sempre bem ditas. Como ela se afobava com as marcas e os anúncios ! Até que, um dia, cerrou os olhos para a tela grande e bonita. O apresentador do jornal nem teve cara de dizer. Mas as crianças o salário a doença – a crise a violência os índices – a fome o IR a polícia –
Difícil.
Com a mão no controle, ela apontou a TV. Mirava a TV, com a mão apertando o controle. E apertava. Era fácil : liga-desliga, esse canal-aquele. Era só escolher. Mas, tinha vezes que queria e o desgraçado não funcionava. Ou ela mirava de muito longe. Ou não encontrava a posição. Também podia ser a bateria que não –
O corte. Dizem. É preciso. Sentiu queimando as palmas. Para isso não tem censura. Revoltou-se. Na rua as pessoas acreditam - não acreditam. Foi crescendo indignação até fogueira. Na dúvida as pessoas : nada. Resignou-se. Não podia só com o seu corpo impedir a ressaca. Lá fora todo mundo – idem. Parecia que era preciso cegar para ver. No papel, os poucos traços que tinha. Nenhum som e palavra. Que caíssem no chão as lágrimas. A geladeira vazia. Ela não soube como conseguiram o seu endereço. Outro dia, chegou pelo correio. Um cartão. De crédito. Não foi ela que pediu. Mandaram. Olhou para ele, lívida. Quebrou-o em dois para não ter dúvidas. É como sal e doce o diabo que não se vê. Sentiu que queimava à beira de uma morte. É como areia e vento – o diabo -
Pressentiu - ali estava –
que aridez.

O tempo é essa música que se esgota. Língua travada nos dentes. Nem sempre ela precisava das palavras. Era um grave engano esse que sofria. Pois. Tinha sempre a impressão de precisar. Submergia sem conter os fios. Um esticava. Outro se partia. Outro enrolava. Uma vez, ela achou que – ao ficar quieta – ficava triste. Mas não. Também pensava que para ser ouvida tinha que falar. Não sabia que os Deuses trabalham no silêncio.
Quando soube, calou-se e –

nossa.

Sentada no sofá, ela ouviu.

Deixou no prato a carne que não mais comia. Fechou os olhos para consumir-se. Destruiu os vestígios da noite mal dormida. O que não pôde mais jogou no lixo.
Talvez tenha que devolver o som e a TV. Talvez tenha que esquecer o amor e a filha. Meu Deus. Pensou o que seria o que seria o que seria. Desfolhou todos os livros para alcançar o sentido –

______ mas não encontrou atrás das páginas nenhuma pessoa.

_______________________________ Deixou então que as folhas caíssem.


Acompanhou a queda livre como um pequeno vôo. Não lia palavra. Descamava por dentro um mundo. Então, ela viu na folha caída o limite. Já não via mesmo mais o mar.
Tinha fluência em 3 línguas. Todos os que leram o seu currículo sabiam. Mas do que lhe servia isso agora. Bem. Podia dizer eu te amo 3 x diferente para ele. E 3 x volte. E em todas as vezes seria o mesmo amor. Se não errasse a pronúncia.
Se não errasse –
Nos almoços de família, ela comia tanto. Como se pudesse se entupir de tudo que um dia a protegera. Pois. Estava agora descoberta. Se tentasse mais um movimento, poderia até quebrar os ossos. Ficaria mais ágil, se ousasse escapar do próprio corpo, se se erguesse apenas com o que realmente fosse seu. Aí, sim. Dançaria linda ao redor da chama. Com o sangue quente, criaria a sua máscara. Com os dedos longos, pintaria a pele. Teria então a vida inteira como sua. Como só se tem a morte ela teria a vida. Seria seu e apenas seu todo o instante.
O banco forte não sabia. Mas ela é que era especial. Ah, as árvores não se iludem com a pouca luz das lâmpadas. Que coisa. Tirou mel da boca e passou na vista. Na ponta dos pés ficava na mesma altura dos saltos. Quando andava descalça sentia-se baixinha. Não queria preocupar a família os amigos que não mereciam preocupação. Um dia tudo passa como a brisa mais leve. Um dia tudo se –

Viu-se menina azul e violeta. Se ficasse doida seria mais um caso na família. Ajoelharia em seu próprio trono, pisaria em seu próprio manto. O céu que cai sobre as avenidas não sabe. Ela sim, ela sabe – tem muito talento um amor e planos. Achou bom olhar para cima, ter onde cair no chão. O que não pode mais é ficar assim - dependendo de fulano sicrano beltrano. Já era uma coisa depender de si. Um dia já lhe elogiaram tanto. Que os ossos se quebrem. Ela continua a mesma – e sabe : é capaz de suspender a respiração por um minuto inteiro. Ou mais.
Uma vez, deixara o ar levantar a poeira. Deixa agora a poeira invadir os espaços. Um dia, a deixará percorrer a sombra das janelas, abrir o vento das cabeças.

O horizonte não tem meio. Por onde ela pudesse chegar. Tanto faz. Dentro da boca ela sabe – ainda há o que dizer. Talvez nunca diga. Respira. Que coisa. Olhou para os lados, para baixo, para cima. O mar as montanhas a gente. O azul o céu os bichos. A fumaça as lojas as avenidas. Que estranho. Tudo estava ali, e ela dentro. Como da terra a verdura o agrotóxico o inseticida, como da gentileza a alegria a cobrança a medida, como do álcool a limpeza o perfume a bebida , como na boca a língua fala pouco - mais a saliva. Do jeito que a palavra é dita quase nunca é ouvida,
do que jeito que distorcem as coisas – desculpe, como do carro a aventura o conforto a batida - e com o tudo mais que rima não rima – fez-se parte.
Pois.
Tinha que continuar.
Para não perder o hábito, dar uma volta até a esquina. Para não esquecer das coisas, ler o jornal todos os dias. Quando encontrar uma pessoa : sorrir – só um pouquinho – e cumprimentar : boa noite boa tarde bom dia. Não olhar muito nos olhos, nem deixar cair logo o sorriso. Oh, poderia também dizer outras palavras. Sai daqui. Chega. Não enche. Não interessa. Que dane. Que se fo-
Mas. Ela já tinha descoberto o silêncio. E estava quase concreta. Tirou das pernas o último alento. Deixou o fogo e o frio equilibrarem as suas forças. Sentiu as costas se abrindo para o ar. A nuca repleta de nuvens. Pelo espaço atravessam as direções mais impossíveis. Ela pensou na palavra FIM. Logo a sua mente escureceu. Então era isso –

Fora despedida de um bom emprego. Fora despedida também de um emprego qualquer. Recessão, disseram. E ela teve a sensação pequena, como o sal queimando. Os sons ecoam e ela os reconhece. O desenho de infinitas estruturas. Afunda o rosto e os ouvidos na água. Chama os elementos que a fundaram viva. Afinal, era parte. Nunca acaba isso que termina. Ela lambe o que cria, sozinha, sozinha.

Está só. E está – em absoluto - como se não houvesse um amanhã em que não estivesse. Mas é ali – só - que movimenta o mundo. E segue o movimento dentro dele. E conjuga os verbos sem pensar no infinito.

Ah, se chegasse mais uma carta ! Se recebesse logo uma resposta ! etc etc etc ! Mas. Quando. A doce fúria da espera. A sorte.

Ela nunca teve medo. As suas mãos ficam quentes sempre que preciso.
Amanhã é um dia mais lindo porque ela nunca sabe onde –
Ela, que já aceitara os elementos, corre agora com os cabelos em tranças.
Viu-se alto de um rochedo. Reconheceu-se precipício.
Não teve medo. Pensou. Como tudo. Aqui. É.
E precisou chorar. Pois os seus pés não hesitavam mais.
Então –
Era muito dada. Mas na sua família não havia isso – de não ser.
Já amou tanta gente. Inclusive –
Lá pelas tantas – cantava.
Uma vez, chorou um pouco aos quatro ventos. Pois. Ansiava pelo chão. Era mulher marrom e negra. Branca de sonhos. Vermelha também na carne e no sangue. Que coisa. Lá fora a distância. Por dentro também. Como a língua fala pouco. E então. Nunca teve medo. Pensou. Quando. Mas o teto a sua frente parecia uma parede a mais e a janela –
De todas as coisas, ela só queria encontrar a palavra certa para isso : a vista. Para isso tudo que sentia – de ver. Mas pressentiu - como aqui tudo é ! Tanto. Não quis mais esperar que amanhecesse para começar o dia. Lá pelas tantas, ela já sabia. Claro. Os cabelos vão crescer com o tempo. E com o tempo tudo vai –

1.3.08

Canto de Cecília para um sábado de chuva



Murmúrio


Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.


Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.


Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!



********************************


Motivo da rosa


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos ao longe,
o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.



(Cecília Meireles)

27.2.08

Textos no Rascunho

Muito bacana o retorno que tenho recebido dos meus dois textos que saíram no jornal de literatura Rascunho, no mês passado e em dezembro. A minha primeira alegria foi a comprovação de que, sim, há muita gente que curte debater/pensar literatura pela própria literatura, com veracidade e interesse real pelo assunto. Essa troca dá uma satisfação imensa. Os dois textos, intitulados, no jornal, de Caminhos Imprevisíveis e O tradicional e o rebelde, fazem parte da minha dissertação de mestrado, Por uma literatura sem pudor, que fiz na PUC-Rio. Na dissertação, tento refletir sobre o caminho do escritor contemporâneo diante das heranças tradicionais e de vanguarda. Para isso, o meu guia foi Cortázar, e o perfil de escritores que ele denomina como "tradicional" e "rebelde". Quem curte literatura e seus caminhos, curte a visão do próprio escritor sobre ela, não pode continuar respirando sem ler A teoria do túnel (Obra crítica I, Civilização Brasileira) de Cortázar. É apaixonante acompanhar as reflexões e angústias de Cortázar, um escritor que não canso de admirar, pelo talento, mas não só pelo talento, por sua inquietude, sua generosidade em expor as suas dúvidas, anseios, medos e questionamentos. Cortázar nunca esteve preocupado em acertar ou errar, mas em estar de acordo com a sua visão literária. Esta postura é evidente em seus textos. Cortázar tem uma pulsação muito própria, é quase como o jazz. Há uma frase melódica que dá lógica e liga ao texto, mas há o improviso, há a digressão para um caminho próprio.



A busca de uma voz própria singular, pessoal, é o fio condutor da minha dissertação. O título pode sugerir algo sexualizado, mas não tem nada a ver. O despudor citado é referente a certo olhar nublado do escritor contemporâneo diante das heranças literárias. Córtazar cita dois opostos, o escritor rebelde, que quer destruir todos os parâmetros tradicionais, e o escritor tradicional, que quer cumprir e manter a tradição realista, que formula racionalmente a realidade. Eu pensava na época em que escrevia, e continuo pensando, que o escritor contemporâneo só encontra a sua própria voz quando, de certa forma, se posiciona diante da história literária. Isso pode ser confundido com uma escolha de partido, direita ou esquerda, mas não é assim. Não é uma questão de esnobar a tradição e aplaudir a vanguarda, nem ao contrário. É ter um olhar consciente dos diversos caminhos já percorridos e relacioná-los com aquele que se percorre. É ter o conhecimento do que já foi erguido e destruído, reerguido com novo material e combatido novamente muito antes da gente nascer. É saber que não usamos armas novas, sejam elas da vanguarda ou da tradição.



Na época do teatro (saudades), esta era uma forte questão na linguagem teatral. Todos nós queríamos sair do naturalismo, do realismo. Queríamos uma linguagem criativa, queríamos dar às mãos ao teatro experimental, do Barba, Pina Baush, Grotowiski. Mas também já tínhamos consciência que o caminho experimental não era, por isso, o da contorsão, da maluquice, do porra-louca, do vale-tudo. Toda linguagem, seja ela qual for, tem a sua convenção, foi a lição principal que o teatro me deu e nunca esqueci, nunca esquecerei. Por isso, era muito engraçado quando assistíamos uma cena onde os atores tremiam, gritavam, se contorciam, faziam horrores com o corpo e a voz, na tentativa desesperada de sair do cotidiano, do realismo, do naturalismo. Como consequência, essa tentativa matava a história, ou situação encenada, matava o ritmo, matava a autenticidade da cena. O que restava? Uma visão de hospício.



Na literatura, com os ajustes para a natureza da prosa, não é muito diferente. Percebo, muitas vezes, que os textos atuais carecem de convenção, no sentido dito anteriormente. São escritos, muitas vezes, ingenuamente, como se escrever fosse apenas começar. Escrevi a dissertação pensando nessas coisas todas. Olho com mais simpatia para o escritor rebelde, citado por Cortázar, porque foi o seu perfil que levou a literatura para onde ela está. Sem os seus esforços, o passo seria mais lento. Agora, é equivocado achar que a rebeldia implica em gritos, pornografia, violência, escatologia, ou seja lá o que for considerado "moderno". Foram rebeldes Virginia Woolf e Mansfied, foram rebeldes Clarice e Rosa, foram rebeldes Hilda Hilst e Oswald de Andrade, foram pais-rebeldes Joyce, Proust e o surrealismo. Agora, é tarde demais para desfolhar um livro e pendurar as suas páginas numa árvore de arame, como fizeram os surrealistas, assim como é tarde demais para formular racionalmente uma história, com descrições, justificativas e explicações excessivamente estabelecidas. Ao meu ver, é este o impasse do escritor contemporâneo. E a história exige, ela não perdoa.



Como disse Cortázar, o desejo maior do escritor rebelde nunca foi destruir a narrativa realista apenas por destruí-la, mas porque ela paralizou dentro de sua convenção o espírito criativo e pessoal do artista. A rebeldia veio para resgatar na literatura a experiência sensível, íntima, pessoal, de quem escreve com o que escreve. Este é o princípio, e não "ser criativo e original". A originalidade e criatividade são consequências inevitáveis do artista que toma um caminho particular e único.


"O lamento está no fato da ainda tão recente noção de literatura, surgida no século 19, como algo que não é poesia, nem gênero, mas algo que trata da experiência sensível, já tivesse que enfrentar logo de início a barreira de uma afirmação literária em bases estéticas. Afirmação que valorizava, acima de tudo, a forma e o estilo, abafando o impulso pessoal e criador".


Os textos no jornal Rascunho, para quem quiser dar uma olhada:
Estão na seção de Crítica e Resenhas.

26.2.08

Um momento rodriguiano: sobre o novo-escritor

Não posso ler muito o Nelson Rodrigues. Principalmente as crônicas, não posso. E tenho lido. Muito. É uma questão de sobrevivência. As crônicas do Nelson me divertem, são mais eficazes contra o stress do que a meditação e a yoga. Decidi que, daqui para frente, nunca mais vou a yoga. Na hora da aula, acenderei o incenso, sentarei em lótus e lerei Nelson Rodrigues.


Bem, mas falo isso porque quando leio Nelson Rodrigues fico contaminada com a sua fina e cruel ironia. A sua vontade de falar o que deve e não deve. E a questão é que tenho pensado muito na Geração Paissandu que o grande escritor cita em suas crônicas. É a Geração de artistas de esquerda, que, na década de 60/70, freqüentava o cinema Paissandu, no Flamengo. Segundo Nelson, é uma geração de cineastas sem filmes, escritores sem livros, pintores sem telas, atores e atrizes sem peças, filósofos sem filosofia, e por aí vai... Todos, no entanto, profundos intelectuais. Nelson não suportava esta Geração que colocava Marx, Fidel e Che na frente da criação artística. Entretanto, apesar de colocá-los na frente, a única coisa que faziam era posar ao lado das idéias dos grandes líderes. Para a Geração, era o suficiente sair de casa, ir ao Paissandu e falar de Marx, Fidel, Che e dos livros geniais que nunca escreveriam, dos filmes geniais que nunca filmariam, etc... Para Nelson, a geração Paissandu era apenas e simplesmente uma pose monumental.


E vejam, tenho pensado muito na Geração Paissandu e de repente, navegando pela Web, me deparo com uma entrevista com novos escritores (o Nelson colocaria um hífen entre as duas palavras e emergiria daí um personagem). E a declaração bombástica de um deles (Nelson diria os nomes) é que a vantagem de sua geração é que ela não precisa conhecer o passado literário. Estão, finalmente e simplesmente, livres para criar. Nelson Rodrigues falava muito dos idiotas da objetividade. Aqueles que falam os maiores absurdos na mais inocente cara-de-pau. Ou aqueles que falam as coisas mais óbvias com o ar e a pose de um Rimbaud. Aqui, no caso, o novo-escritor falava sinceramente. Realmente achava que a ignorância era libertadora. Essa idéia confusa que une a ignorância à liberdade, Nelson não perdoaria. Ainda mais dita pelo “O jovem”, personagem conhecido das crônicas rodriguianas. Pois, como o jovem rodriguiano, o novo-escritor, com a potência de sua juventude, despachou todo o nosso passado literário com um peteleco só. Passado antigo ou recente, não importa, foram enxotados da literatura contemporânea todos os nossos escritores. Restou apenas ele, o jovem, com o seu texto livre, livre, livre.


Dói e cansa falar o óbvio, dizia Nelson Rodrigues, e dou as mãos a ele em seu cansaço e dor. Se conhecesse o passado literário, se tivesse referências de escritores, paradigmas erguidos e rompidos, para dizer o mínimo, o jovem novo-escritor teria poupado a si mesmo e aos caros leitores da declaração seguinte, que lhe pareceu vir de uma reflexão profunda e reveladora: “estamos renovando a literatura brasileira”, ele disse. Nessa hora, sobre o meu computador, baixou um mau tempo de quinto ato do Rigoletto. Um padre de passeata atravessou correndo o quarto. Um pigarro imaginário sufocou minha garganta. Senti revirar no estômago a úlcera que não tenho, e que Nelson Rodrigues acalmava todas as madrugadas com papinhas e mingaus.


Claro, claro, o jovem novo-escritor renova a literatura brasileira instaurada por ele mesmo: a de uma geração só. Assim, enterrados Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Cornélio Pena, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Hilda Hilst, Castro Alves, Autran Dourado, Graciliano Ramos, José de Alencar, Murilo Mendes, Lygia F. Telles, Lima Barreto, Qorpo-Santo, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Aluísio Azevedo, Manuel Bandeira, Lúcio Cardoso, Raquel de Queirós, Adélia Prado, Sérgio Sant’anna, Cruz e Sousa, Paulo Leminski, Caio Fernando Abreu, e o próprio Nelson Rodrigues, - só para citar alguns escritores entre tantos outros que contribuíram, acrescentaram ou até mesmo transformaram a nossa literatura,- então, enterrados todos, é possível, é fácil, é rápido, ser renovador, ousado, original, genial.


Depois de ler a entrevista, interrompida no meio, confesso, só me restou voltar às crônicas rodriguianas, para acalmar os ânimos, e torcer, diante de círios ardentes, para que a opinião do jovem novo-escritor seja tão solitária como a geração que ele proclama, e não ganhe ares do estádio Mário Filho em dia de Fla x Flu.